Fora do Normal

Às vezes alguém do nosso convívio se comporta de maneira “fora do normal” – diferente daquela que nos falaram a vida inteira que era a correta. A pessoa é tão verdadeira que parece até um desrespeito aos bons modos com que fomos criados. Esse comportamento estranho pode provocar reações diversas, isso significa que alguma coisa está se movimentando dentro de nós.

Toda reação pressupõe algum tipo de identificação interna consciente ou não. Quando ela é consciente, sentimos emoções positivas: admiração, alegria, interesse, alívio, relaxamento, tesão… Ou caímos na inveja, a polaridade negativa da admiração. Quando a identificação é inconsciente, está nas sombras, nos deparamos com a resistência. Por algum motivo não queremos ver aquela parte nossa e por isso sentimos raiva, ódio, incômodo, angústia e agonia.

Em ambos os casos, nos deparamos com uma oportunidade rara de autoconhecimento. Mas quando estamos nas sombras, sentindo tantas emoções negativas, essa oportunidade parece ser ainda mais valiosa porque temos a chance de descobrir algo sobre nós mesmos que não sabíamos e iluminar uma partezinha que estava ali nas sombras gerando sofrimento. Ou seja, temos a oportunidade de ser mais felizes!

O problema é que a grande maioria de nós não faz essa reflexão interna, não trás pra si a responsabilidade sobre os seus próprios sentimentos, não se volta pra dentro. E acaba optando por projetar a resistência em cima da pessoa que está agindo de maneira diferente. Projeta o incômodo, a raiva, a falta de amor em cima do outro e, como uma maneira de se defender de si mesmo e evitar esse aprofundamento, acaba atacando a pessoa. Xinga, grita, faz fofoca, se revolta contra aquela presença. Quer destruí-la de alguma maneira para que essa resistência e esse incômodo interno cesse.

Sem ter consciência de que ela nada tem a ver com aquela agressão, a pessoa acaba tomando pra si aquela culpa, comprando algum tipo de briga irrelevante, caindo em uma armadilha das sombras do outro. Muitas vezes ela  nem percebe que está provocando resistências até que seja tarde demais. E assim vamos destruindo nossas relações e nos afastando do caminho do amor, gerando mais separação e sofrimento no mundo.

A pessoa agredida deve permitir que a briga externa perca força e rezar para que a pessoa incomodada parta pra sua verdadeira briga que é consigo mesma. As chaves aqui são a auto responsabilidade e a empatia – a capacidade de se colocar no lugar do outro, no contexto do outro e sentir-se no mesmo barco. Cada um de nós está passando por um processo que o outro nem imagina. Nosso instinto natural, infelizmente, ainda é o de reprimir estes processos, reprimir o outro para que ele se encaixe no que nós acreditamos ser aceitável. E assim reprimimos os processos de libertação alheio. A pessoa é livre demais, verdadeira demais, emocional demais, autêntica demais… Porque isso te agride? O que em você está de menos? Onde você está se reprimindo e, por isso, sentindo a necessidade de reprimir e repreender?

E no final das contas, não é sempre que alguém diferente passa pelas nossas vidas, nos tirando da nossa zona de conforto. Aproveite essa janela para se conhecer melhor e ser mais feliz! Escolha a luz!

What to do after you have a breakthrough. (You’re going to shrink after you expand, so, listen closely.)

source: http://www.daniellelaporte.com

Threshold, crossed. You got there. After the grinding, the repetitive strain, the cord-cutting, the screams of release, the bliss of relief — the training paid off. Muscle burn got you across the finish line. Soul fire resurrected you. BREAKTHROUGH.

Rebirth happens. The ascension was real. There’s no turning back now. You are true and you ARE new.

Now what? (Because you’re in a new state. And that’s equally awesome and freaky. And you’re about to slip. Which is rough. And ironically, right on course.)

WHAT TO DO AFTER YOU HAVE A BREAKTHROUGH (in this order, give or take.)

Be so very gentle with yourself. Tenderness is essential. Birth requires recovery time. Athletes rest, they heal their blisters and let the lactic acid run it’s course. Soul seekers, you need to be quieter than usual. Let the change bake into your cells. Don’t shout about your revelations yet. Give yourself a few days to calibrate. Watch a movie. Put some rose oil on your third eye. Drink tea. Eat pasta. Head to the ocean. You know, the comfort stuff.

Notice that you’re noticing more now. A paradigm shift is a new way of seeing, so the grass actually looks greener, and you can hear what people are really saying, and yes you ARE looking sexier today. You’re sharper now and you will notice more. Keep it up.

Be prepared for some constriction.

This is really, really important:

Expect to fall back — and be incredibly compassionate when the inevitable slip happens. This is the pattern of really big change: Big expansion. Slight constriction. Return to expansion. Micro constriction. Back to expansion — full, fuller, fullest. Expanded.

You’re learning how to do the new you. You’re reacclimatizing to truth and joy and power. You’ll forget for a minute that you’re more powerful than you have ever been. And you’ll dip into an old pattern or habit. You’ll get all jangled and unnerved by the shit you “thought” you just surmounted. That’s cool. You’re on track. You’re re-confirming your expansion. You may be testing yourself. You may even be trying to sabotage yourself. It’s okay, Love. Because you can step back into your new, bigger size WAY more easily than before. Powering up is getting easier. Can you feel it?

Joy can be unsettling. Power can be terrifying. Newness is a mind trip. That’s all you need to know. It’s not that your breakthrough was false, it’s simply that this is… new. Remember how wobbly you were when you learned to ride a bike? Or the first time you drove fast, alone; or swam in the open ocean? This is new, this is new…this is…awe-awe-AWESOME! Stuttering with your new power doesn’t make it any less real. (Also, your new-found power is not afraid of your learning curve. It’s here to stay.)

Document the transformation. Write out your old-to-new ways of being. “I was hiding and silent. I call all of my power back to me. I saw the truth. I spoke the truth. Now I am visible. I feel power in my voice and visibility. I will speak only truth from now on. I’m truly free. Joy is in the freedom. I will keep bringing my joy to the surface.” Write about the revelation. Write about your new way of doing things.

Now declare that you’ve changed. Write a memo. Change a policy. Tell your most trusted friends about your transcendental experience. Talk about how you died and came back — stronger. Articulate what you let go of. Describe the New, True you.

Replay the breakthrough experience. This is key. There was a process that helped you get to the other side. It can be a simple as the eureka moment you had in the pub, talking it through with your mates; or it was the kundalini that shot up your spine in yoga class; or you smoked some peyote on a vision quest; or you cried it out and saw angels in your living room; or you finally fucking launched, or danced hard, or spoke UP. A breakthrough is a breakthrough. Go back to that magic moment when you woke up and recall how the light filled you. And keep calling on that light. 

Keep pulsing open, into your power, WITH your power.

Focus on opening opening opening. Come on…

Don’t let the flash of insight stay just a flash. Tend it like a fire.

Stay with it. Feed your power appreciation and respect. Root DOWN.

Let the newness turn you on. Remember that your bones are full of throbbing marrow. Your cells are constantly renewing (physiologically speaking, you are not the same human you were seven years ago — all of your cells have turned over.) New is HOT.

Just believe me. Go ahead. Lean on my cosmic troops, they are 34-foot mighty angels and they love to show up. I’m telling you: And it’s impossible to turn back after you’ve seen the light. Stare into your own heart and you’ll know what I mean.

Melissandra

Melissandra leva uma vida dupla há alguns anos.

Por fora ela é boa uma filha e neta, trabalha em um hotel, já viveu muitas coisas, passou por muitas fases e nunca se encontrou muito profissionalmente. Está solteira há alguns anos, tem medo do amor. É uma ativista frustrada tentando compreender melhor as dinâmicas da realidade do ser humano e as escolhas coletivas. Ela mora na casa da sua família, se esforça pra perdoar, ser grata, ser humilde, fazer regime e acorda por volta das 11:00 pra chegar no trabalho 12:00. Come arroz, feijão e filé de frango no almoço no refeitório do trabalho, atende hóspedes em inglês, espanhol e português. Está ficando com um homem 10 anos mais velho que conheceu no Tinder, ele é gerente em uma empresa de TI e a leva pra tomar cervejas e fazer um sexo light.

Ninguém sabe o que se passa por dentro dela, quando ela está sozinha no seu quarto.

Esse outro lado, o seu lado selvagem, o lado que não está nem aí pras escolhas coletivas da humanidade, está farta de tanta humildade que é preciso ter para não magoar os delicados seres humanos, o lado que viaja por outras dimensões, se conecta com os espíritos, faz amor tântrico com um monge, bota uma mochila nas costas e sai viajando guiada por cartas de tarot e numerologia, o lado que é fora da caixa, que acha essa vida material do Rio de Janeiro-Ipanema-Copacabana a coisa mais chata do mundo, o lado que não aguenta mais se vestir com essas roupas da moda, que não aguenta mais ouvir pessoas falando de uma notícia que deu no jornal atrás da outra vendo a vida passar, o lado que quer fazer jejum, correr na praia, pegar uma insolação, se apaixonar perdidamente por alguém tão alucinado quando ela, quer sentir intensamente novamente. O lado que alimenta o cérebro de meditação e cogumelos mágicos. Que transmuta energias e tem visões. Esse outro lado está muito puto.

As experiências mais importantes de sua vida vem desse lado. Mas por algum motivo, Melissandra reprime isso, não conta pra ninguém, sente vergonha. É como se ela não acreditasse que isso tem valor porque todos ao seu redor lhe dizem que isso não é normal. Essas coisas não existem. Você está louca. Só que ela se sente profundamente entediada. Um tédio ancestral. Nada a agrada mais enquanto esse lado não assumir sua vida. Ela está cansada de disfarçar, de tentar ser normal, de agradar os outros. Farta dessa vidinha material vazia de sutilezas e conexão com o divino. Ela olha ao seu redor e não consegue compreender como ninguém mais sente isso. Talvez ela esteja sendo muito radical, aceitar as diferenças é ainda um dos seus desafios. Como aceitar a aceitação dessa situação de vida em que as pessoas se colocaram?

Ela nunca se sentiu tão entediada. Está gorda de tanto tentar alimentar sua fome de vida. Tem olheiras ao redor dos olhos de tanta energia que gasta tentando ser alguma coisa que não é. Está perdendo todo seu cabelo se preocupando com coisas desimportantes para não olhar pra essa repressão. Seus orgasmos são um pouco menos intensos pra evitar a liberação de energia. Suas roupas são nude e cinzas pra não dar vazão às cores da sua alma. Suas conversas tão vazias quanto as de todo mundo. Ela está E-X-A-U-S-T-A. Passa a maior parte do seu tempo dormindo em pé e deitada. Está completamente entorpecida de doces e carnes, cigarro e instagram.

E por isso tudo, está indo embora. Antes que ela caia dura, morta no chão de tédio.

Dança e Debate

O festival começa com um longo debate sobre a humanidade e a nova realidade coletivamente criada. O debate começa de maneira espontânea, já virou a maneira correta de começar. Toda a dança de depois será baseada no clima da discussão. A cada festival, um tema chega intuitivamente. Alguém puxa alguma reflexão aleatória sobre o mundo e daí as ideias fluem livremente. Tudo facilitado de maneira autônoma, a roda facilita a si mesma. Já aconteceu do debate durar o festival inteiro, algumas pessoas mantendo o fogo central aceso e as ideias periféricas aquecidas. Quando se chega em reflexões por demais profundas, que normalmente vão de encontro com o acúmulo histórico de toda reflexão que já foi produzida anteriormente, em todos os tempos, em todos os lugares, é preciso ir pra pista.

Na pista, os espíritos auxiliam os rumos que as reflexões precisam tomar. Os aditivos psicodélicos permitem o contato com outras realidades, outras ideias, outras dimensões. Rituais nascem espontaneamente no transe induzido pelo trance e atinge-se uma clareza maior sobre aquilo que se está repensando e criando. Pede-se ajuda e dança-se para recebê-la. Aqui a facilitação é feita pelos xamãs, que se conectam com o invisível de maneira quase imperceptível mas vão a outros lugares, outros tempos, só pra retornar com algumas respostas que serão novamente debatidas. São muitos os que estão se descobrindo xamãs nessa linha tecnológica do trance. Nem sempre aquilo que é o indicado pelos espíritos é acolhido pelos homens, afinal, os homens são antes de tudo, livres. E este mundo que está sendo repensado é, antes de tudo, dos homens.

Um grupo que se reconhece com a mão no coração puxa essa função ritualística de criação nos festivais dando um sentido maior para o ato de debater e dançar ao mesmo tempo. A cada festival que invadem, outros se juntam a eles porque compreendem que aqui tem algo de especial, aqui alguma coisa está sendo construída de uma maneira nova. Eles são nômades tecnoxamãs, que se alimentam da inovadora experiência tribal proporcionada pela arte e tecnologia dos festivais de trance para inicialmente refletir e depois manipular as energias estagnadas da realité.

Durante os intervalos entre os festivais, eles escrevem suas percepções dessa nova forma sagrada de interagir com a tecnologia de maneira a criar uma nova realidade ou repensar a antiga. Eles aprendem muito nos processos de cura que acontecem na pista de dança e se apoiam mutuamente no registro daquilo que foi vivido. Todo o conteúdo produzido é sistematizado e assim serve de auxílio para futuros debates, embora nada seja nunca passível de cristalização, todas as ideias são repensadas o tempo todo. A maneira de pensar e de se comunicar é diferente, ela vem em fluxos e ciclos. Ela abraça as imperfeições humanas com amor e respeito às diferenças. Por horas ela não faz nenhum sentido, é daí que nascem as melhores ideias. O mais importante daquilo que é produzido são mesmo as perguntas que não se consegue responder.

O que é ser humano? O que vamos criar? Como vamos criar? Que conceitos precisam ser debatidos? Que conceitos precisam ser ressignificados? Quais são as ideias que nos foram roubadas? Que ideias vamos roubar? O que é roubo? O que não é aceitável? Existe certo e errado? O que é o corpo? O que é a mente? O que é o espírito? Qual a função do DJ? Onde está Deus? Quais são as forças opostas na dança? De onde vem a cura?

Elis

Ela respirou fundo, tomou coragem, marchou até a sala da sua chefe cubana e pediu demissão! Foda-se. Foda-se se ela não tem algo garantido ainda, foda-se se não sabe o que vai fazer da vida, foda-se se vai ficar sem dinheiro, foda-se se aquele emprego era uma boa oportunidade de ter uma vida normal e crescer na carreira. Foda-se.

Ela já não estava mais aguentando aquela monotonia diária. Elis está trabalhando há 6 meses como recepcionista de um SPA no hotel mais chique da América Latina. Um desses hotéis históricos, dos mais importantes. Aquele que todo mundo conhece, todo taxista sabe chegar sozinho, é o puro status trabalhar ali. No meio hoteleiro, ela pode até ser considerada bem sucedida só de entrar lá.

Mas trabalhar em um ambiente tão fino, tão 5 estrelas, é um pouco como voltar pra escola. Tem sempre alguém te falando alguma coisa que não está certa, alguma postura que não se pode ter, que o tom de voz está alto demais, essas risadas não são apropriadas, tira a mão da cintura menina. Aos poucos você vai se moldando para se tornar tão engessada quanto as esculturas nos corredores. Aquele clima de castelo antigo vai entrando pra dentro do corpo, que vai tomando uma forma antiquada mas muito bem treinada para sequer encostar na parede porque isso não é chique.

Ela sequer pode se sentar. Tem que passar 8 horas do seu dia em pé no aguardo de pessoas muito importantes virem ser massageadas. É um auê quando chegam “os importantes”. Diariamente recebe-se uma planilha dos VIPS, CEOs e presidentes, celebridades, princesas, delegações e lords que por ali se hospedam e até moram. Um lord inglês tem um quarto pra si e um pra sua cachorra há mais de 2 anos. É o homem mais chato de todos os 7 bilhões vivos no planeta.

Essas pessoas são todas um saco de lidar. Quando ela entrou pra trabalhar no hotel, em busca de uma vida um pouco mais estável, pensou que teria a oportunidade de conhecer pessoas muito interessantes. Em 6 meses, não conheceu uma pessoa sequer, não teve uma conversa de mais de 4 minutos de acordo com o protocolo que deve seguir em cada interação. Os VIPS sentem-se únicos e especiais e a tratam como uma mera subalterna desimportante, ali unicamente para servir-lhes a riqueza e o relaxar. Não existe um pingo de interesse em trocar.

E em 6 meses ela não aguenta mais a vida estável. Ela tem uma necessidade de respirar liberdade, de fazer suas escolhas, de mandar em si mesma. Antes desse emprego estava mochilando o Brasil, vivendo em comunidades tântricas e visitando santuários, fazendo retiros espirituais. E foi em um desses retiros que recebeu instruções claras para voltar pra sua casa de novo, onde ela precisava trabalhar algumas relações e sua capacidade de viver como todo mundo consegue viver – trabalhando um emprego durante 8 horas por dia. Ela nunca tinha tido essa experiência das 8 horas batendo ponto antes.

Em 6 meses, ela se sente secando por dentro. Sente que sua vida não tem valor. Que O-I-T-O horas do seu dia-a-dia não servem pra nada além de receber alguns meros milhares de reais ao fim do mês que ela acaba gastando para se sentir bem consigo mesma de alguma maneira depois. E, concluiu, que essa vida não é mesmo pra ela. Mas ela precisava ter a experiência para saber que aquilo não era ela, antes uma parte sua se culpava e se sentia incapaz perante o outro. Ela se sentia fraca por não conseguir viver da maneira que os outros conseguem. E agora ela se sente muito forte pelo mesmo motivo.

Os outros que estão malucos, que estão muito conformados, muito viciados nas atividades de sentir bem consigo mesmos depois do expediente. Os outros que tem expectativas baixas demais do que querem da vida. Os outros que estão satisfeitos demais com pouco. Claro que alguns podem estar satisfeitos, realizados, vivendo a missão divina trabalhando essa carga horária, não generalizemos. Mas a maioria certamente não se permite querer um pouco mais, está muito amedrontada, com medo do Temer, da crise, do “espectro do desemprego”. Vivemos tempos em que se não está acuado, és louco.

Bem, ela finalmente aceitou que é completamente louca. Ela já não vê TV, nem lê os jornais há muito tempo. Acredita que é tudo uma grande ficção criada para o controle das massas. Controle esse que vem principalmente pela separação (diferenças ameaçadoras) e o medo. E talvez seja por não se conectar com essa realidade fictícia que hoje acordou e decidiu assim mesmo mudar sua vida. Na verdade, voltar pra sua vida. Ela optou por confiar na abundância do universo, dos seus talentos, da sua energia e da sua sorte. Escolheu CONFIAR novamente que tudo vai dar certo. E se jogou no desconhecido renovada, com um enorme passo dado no sentido do seu autoconhecimento e amor por si mesma.

Há uns 2 meses que Elis estava pensando demais sobre o futuro. Ela planejava pedir demissão com um ano e tirar suas férias remuneradas. Ficava pensando o dia inteiro sobre o que faria, pra onde iria, quanto dinheiro teria acumulado até lá… Sua mente esquecendo-se do silêncio do presente e falando sem parar o dia inteiro sobre o distante futuro. Eis que, aconteceu a tomada de consciência: quando estamos pensando demais no futuro é porque tem alguma coisa errada com o nosso presente. Muito provavelmente estamos entediados com nossa vida. Ou seja, é preciso mudar imediatamente, não temos tempo a perder, a vida é um milagre maravilhoso, cada minuto conta! O tempo é o que temos de mais valor, nenhum minuto volta. Não deixemos nunca pra amanha o que deve ser feito no agora. É preciso dar sinais claros que se valoriza a vida e essa experiência para que o universo possa te presentear por merecimento, possa sentir à partir das suas ações que você está aqui pra ser feliz, não importa o que aconteça. Você não vai ficar aí reclamando da vida, fazendo todo dia a mesma coisa, paralisado pelo medo, esperando que uma grande aventura lhe seja apresentada, ou vai? Quem quer viver, corre atrás da vida.

E agora, seu presente ficou muito mais interessante, sua vida ficou muito mais maravilhosa. Ela está livre, no aberto dos possíveis. Enviando uns currículos, entrando em contato com algumas comunidades, conversando com uns amigos na Africa do Sul… Se abrindo pra ver o que o Universo lhe responde, com que experiências ele lhe presenteará, no agora.

FREEDOM!!! São milhares de estrelas no céu, de graça, todos os dias. Ao olhar pra elas pode-se botar a mão cintura, rir alto e se jogar no chão de tanta felicidade na simplicidade do viver o presente. Se não fosse o medo, o que você faria agora pra ser mais feliz hoje?

Preguiça

“o amanha é uma rua que desemboca na praça do nunca”

Esse mês o Global Talk do Sri Prem Baba foi sobre a preguiça. Falou à partir do conhecimento das matrizes do eu inferior, ou seja, comportamentos que nos mantém na ilusão e desconectados com nosso propósito divino. Segundo a linha do mestre brasileiro, a preguiça é resultado de energia e sentimentos bloqueados. Ela também é um indício de maldade já que atua no sentido de diminuir a intensidade do sentir, nos amortece e alimenta a separação. É uma maneira que o inconsciente tem de dizer não para a prosperidade. Para lutar contra a preguiça é preciso tomar consciência das coisas que estamos procrastinando, adiando repetidamente nas nossas vidas com o objetivo inconsciente de nos manter estagnados nos estados de sofrimento e inércia. A preguiça muitas vezes vem também de crenças de que não se é capaz ou habilidoso, é uma parte nossa que deseja seguir em uma experiência discreta de vida, vivendo com menos intensidade, dormindo e se alimentando de alimentos que nos fazem dormir mais. E, como tudo que é vivo, essa parte deseja se manter viva. É preciso se fazer a pergunta: o que você vem deixando pra amanha? Porque?

Nada é por acaso, especialmente algo que venha do Baba. A preguiça tem sido tema central de reflexão dessas últimas semanas. Na verdade, primeiro a relação espiritual que tenho com açúcar, o alimento do pior que tem em mim que também quer continuar vivendo.

Recentemente fiz 21 dias sem comer doces, foi um sacrifício enorme e um fracasso porque o objetivo era fazer um mês. No final cheguei a um ponto de passar o dia inteiro pensando em doces, meu corpo inteiro implorava por açúcar. Mas sem comer açúcar, eu tinha mais motivação para me exercitar, ir correr na praia, fazer yoga, dormir menos, acordar mais cedo… Minha energia sobe pra um nível totalmente diferente. É possível atingir estados Rajas e Satwa muito mais rápido, a vida toda parece acontecer, me sinto capaz de fazer todas as práticas, meditações, danças que sinto vontade. É mais fácil colocar em prática todo o conhecimento recebido.

Mas eu não aguentei e sucumbi aos doces novamente entrando profundamente em um estado Tamas. Agora estou na vibração oposta, dormindo o tempo todo, sem me exercitar, mal consigo meditar, faço poucas práticas, voltei a fumar cigarro, saindo a noite pra tomar cerveja… E parece que a falta extrema de doces faz agora com que meu corpo peça o tempo todo um docinho querendo acumular açúcar no sangue já que não se sabe quando vou cometer essa loucura de ficar sem doces novamente.

E aí vem a culpa. A culpa de entrar em Tamas, a energia da estagnação, do seguir na inércia, se manter-se exatamente como se está. A culpa de atrasar meu processo, de não conseguir me manter em estados elevados de vibração e de voltar a sofrer. Uma culpa que vai gerando angústia que gera raiva de mim mesma que gera chutes de balde mais frequentes que vai gerando um ciclo vicioso de mais culpa, mais angústia, mais raiva e mais açúcar. E é tão forte, me sinto totalmente impotente perante a força desse alimento e sua influência em mim.

Então a pergunta é como lidar com essa situação com mais amor e menos sofrimento? Uma parte minha quer se comportar com um general, repudiando absolutamente todo tipo de doce e a energia da preguiça gerada por ele. Quer que eu me force a acordar cedo, volte a me exercitar, coma somente alimentos satwas e faça todas as práticas para que eu possa acelerar o meu processo e dar passos largos em direção ao meu propósito. Essa parte não tem muito tempo para me dar amor, só me dá ordens. Mas essas ordens são apenas pensamentos porque na prática quem está vencendo é a parte que quer comer doces e dormir. Não adianta ficar ouvindo o falatório mental desse general só porque ele gera um falso alívio perante a situação. Assim que eu como o doce, começo a pensar que esse foi o último, agora sim vou voltar aos exercícios, etc. etc. Perdendo preciosos minutos de silêncio. Só pra dali há meia hora estar comendo um Petit Gateau. Ou seja, esse general não passa de uma sentinela da mente que quer falar. Não é por aí.

O que tem me dado alívio de verdade é me apoiar no sentido que aceitar as minhas fraquezas e necessidades infantis. E me permitir ficar nesse estado contanto que ele não atrapalhe passos que absolutamente precisam ser dados no agora. Infelizmente tem muita coisa que está sendo procrastinada devido ao sono e à preguiça de sair e de me mover mas essas coisas todas ainda podem ser feitas mais pra frente mesmo, talvez nem seja o momento de ficar imersa em práticas solitárias. Essa preguiça e essa necessidade de açúcar podem ter alguma função de auto preservação também. Se quem quer se preservar é o sofrimento ou é um eu despreparado para abrir o terceiro olho por exemplo, eu já não sei.

Essa vontade de olhar pra essa energia com mais amor me faz começar a refletir sobre funções positivas da preguiça, será que existe alguma que não esteja ligada ao prazer ou hedonismo? Será que a preguiça não tem função espiritual alguma? Qual seria o papel da preguiça no caminho da iluminação? Apenas um desafio a ser transcendido? Ou um degrau oculto?

Daphne

São 3:00 horas da manhã e Daphne acorda de repente, ofegante, de um pesadelo. Mais um desses em que ela está fugindo de alguma coisa e corre desesperadamente no meio de uma mata profunda, jogando seu corpo ladeira abaixo contando com as árvores para lhe amortecer a queda. Dessa vez ela foge de Petistas vingativos que resolveram atacar a população, eles vem de todos os lados, carregados de paus e pedras, vestidos de vermelho. Normalmente ela sempre escapa das perseguições nos sonhos mas hoje eles conseguiram chegar até ela. Quando seu predador lhe encontra, ela reconhece sua face e identifica um velho amigo do colégio. Mesmo assim, ele lhe mal trata e ela, sem ver outra saída, usa sua magia contra ele. Uma magia que vem do medo e da raiva, do tipo que ela odeia. Ela acorda então aterrorizada com aquela maldade. Respira fundo e tenta se conectar com padrões de vibração mais altos, pensando em seu mestre e sentindo todo amor que ele lhe causa. Quando ela pensa nele, ela consegue sentir seu coração batendo forte e feliz. Repete alguns mantras, reza para seus protetores Arcanjo Miguel e São Jorge que não falham nunca. Agora está mais calma e sentindo-se muito melhor do que quando foi dormir.

Daphne não consegue deixar de pensar agora, nesse estado mais elevado, de todo caminho que percorreu até chegar aqui. Nesse tempo, nesse corpo, nessa mente e nessa casa. Ela sente outros tempos, em que ela também provocava pesadelo em outras pessoas e se alimentava das energias do medo e do horror. É algo que hoje em dia parece tão abominável e impossível para ela que ama tanto a vida, as pessoas e o mundo. Mas ela sabe que em algum tempo, as coisas não foram bem assim.

Tudo começou a milhares de anos atrás, quando Daphne não se chamava Daphne e o mundo era um lugar muito diferente. Ela era uma alquimista na França e trabalhava com círculos de mulheres muito poderosas. Elas eram bruxas que estudavam o poder das plantas medicinais. Naquela época, havia pouco acúmulo de registros das plantas e toda sua comunidade trabalhava em uma missão maravilhosa com a natureza, registrando cada descoberta de maneira empírica. Elas aprendiam tudo à partir da sensibilidade. Sentiam cada plantinha agindo em alguma parte do seu corpo e da sua mente. Criaram um grande arquivo de cura e pessoas de toda Europa começaram a buscar essa comunidade para se curar das mais diversas enfermidades físicas, emocionais e espirituais. Elas treinavam mais pessoas para que espalhassem esse conhecimento e viviam em muita união e amor. Sabiam claramente que estavam fazendo um trabalho para a humanidade em muita conexão com Deus e divino. Eram guiadas por muitos protetores e por uma bela egrégora de cura e amor. Estavam ali às ordens da cura e do feminino. Aquilo era um resgate desse poder matriarcal perdido nas épocas do Cálice e da Espada e das relações de parceria entre o feminino e o masculino na gestão de uma sociedade.

Não está muito claro pra Daphne o que foi mas, em algum ponto, alguma coisa deu errado. De alguma maneira, até hoje, ela carrega uma culpa por isso. Talvez por ter revelado demais, talvez por não ter sido capaz de ler os sinais mas um grande incêndio tomou a comunidade e dezenas de pessoas morreram. Todo o seu trabalho lhe foi tomado pela Igreja que tomou todo registro das plantas para si e escondeu aquela sabedoria ade eternum. As que não morreram no incêndio, foram queimadas na fogueira por bruxaria e aquele lugar foi apagado do mapa para o todo sempre.

Até hoje ela não se conforma com esse final frustrante daquela bela vida. Depois que morreu, ela não conseguia se perdoar e não conseguia perdoar a Deus por aquele acontecimento. Se aquilo terminou da maneira que terminou, Deus permitiu, a egrégora permitiu. Eles não foram sequer avisados para que salvassem um pouco do trabalho, as suas vidas e reprogramassem as suas missões. Como podiam estar tão conectadas com seu propósito divino e tudo acabar daquela maneira?

Daphne se rebelou contra Deus. Abandonou o trabalho da luz. E na sua vida seguinte, se entregou para um trabalho nas trevas. Tornou-se um grande mago negro que comandava todo um clã de feiticeiros que trabalhavam com acordos, com raiva, com dor, com horror. Foi um dos magos negros mais poderosos de toda história da humanidade e quando morreu passou a fazer o mesmo do astral, comandando uma egrégora de sofrimento. E assim passou algumas centenas de anos. Revoltada. Rebelada. Jogando no outro time. Inconformada com tamanha injustiça!

Porém, após tanto tempo desconectada do bem, começou a se cansar do mal. Cansou-se dos seus processos, da manipulação, do sofrimento, daqueles estados de baixa vibração constante, aquela raiva e inveja permanente. Cansou daquelas regras cansativas, daqueles rituais sombrios, daquele linguajar pomposo. Cansou de se achar a última Coca-Cola do deserto. Mas já tinha enfiado o pé na jaca, feito acordos e pactos bastante sombrios também. Sair dali seria muito difícil. Seguiu enrolando ainda durante um tempo, afinal estava bastante confortável naquele papel tão poderoso e temido.

Um dia, trabalhava meio que mecanicamente, manipulando as mentes de alguns homens governantes para que iniciassem uma guerra nas redondezas da Lituânia. Se aproximava deles vibrando em raiva e rancor e deixava que eles fizessem o resto. Era fácil demais, eles se identificavam rapidinho. Quando acabou a reunião e eles fizeram o telefonema para soltar a primeira bomba, ela vibrou um pouco de satisfação e vingança e foi-se dali sem ser vista.

Ao virar a esquina, estava na Índia onde tinha um compromisso para afastar as pessoas de um Ashram abandonado que estava sendo ocupado por algumas famílias pobres que aos poucos o estavam reconstruindo. Foi quando deparou-se com uma cena de profundo amor e gratidão daquelas famílias por Deus. Conseguiu sentir que aquele espaço lhes dava de comer, lhes dava abrigo e permitia que momentos de alegria e conexão com o divino acontecessem. Era um Ashram que tinha sido muito grande e muito vivo há um século atrás e dentro dele ainda reinava uma energia milagrosa, de muita disciplina e luta pelo amor. E, de fato, vivenciou sem querer, um milagre do amor e sentiu-se novamente na presença de Deus.

Imediatamente começou a chorar. Não chorava há séculos, nem sabia que ainda lhe era possível. E naquele momento arrependeu-se de tudo e permitiu-se sentir uma enorme saudade de Deus. Uma enorme saudade daquela sensação de simplicidade e segurança de estar fazendo o bem. Sentiu muita falta das plantas, da natureza e das cachoeiras. Lembrou-se da sensação tão antiga de ser abraçada pelo mar e caiu em desespero. Seu reino de terror havia chegado ao fim.

Deus lhe acolheu novamente, sem pestanejar. O arrependimento era verdadeiro e o desejo de voltar-se novamente para a luz, intenso.

O processo de saída das trevas não foi barato.

Entrou novamente para os ciclos de reencarnação. Com muito o que evoluir, passou milhares de anos nascendo, morrendo e crescendo espiritualmente. Escondida e protegida dos seus seguidores sombrios que jamais deixaram de procurá-la, revoltados com seu abandono e com a falta de seus poderes. Até que chegou a um ponto de força e de aprendizado em que optou por se reconectar com a malha energética da terra, quis voltar a ter uma missão mágica e ajudar a humanidade novamente. E para isso foi preciso revelar-se para também aqueles que lhe buscavam e enfrentar seus ataques.

Ataques estes que constantemente vêm pelos sonhos. Ela pode sentir-lhes a presença antes de dormir ou quando dorme em determinadas posições que parecem facilitar-lhes a aproximação. Ela não sente medo, a não ser no próprio sonho. Às vezes fica de saco cheio, sente raiva, manda o ar tomar no cu. Mas acorda e se dá o enorme prazer de se conectar com Deus! Se conectar com seu mestre xamã siberiano. Se conectar com o Prem Baba. Se conectar com mantras, Arcanjos, mestre Sant German e Jesus! Que alegria é estar no seu time de sempre. Que alegria é estar de volta na luz. Que alegria é ser boa. Que alegria é ser alegre. Que alegria é amar.

E ela sabe que ter que lidar com forças um pouco mais sombrias é parte do seu aprendizado. Ela sonha em trabalhar com defesa energética, tornar-se uma guerreira de luz! Se sente grata até por isso. Não é fácil mas é um desafio que esconde um enorme tesouro por trás. Um dia ainda vai poder ajudar outros que fizeram o mesmo movimento. Um dia ainda vai, quem sabe, poder retomar um trabalho mágico em alguma comunidade.

Hannah

Hannah está descobrindo que tem superpoderes. Ela sempre amou os filmes dos X-Men! Quando era pequena, assistia Capitão Planeta e sonhava com um anel de poder. Ela gostava de Cavaleiros do Zodíaco e achava aqueles poderes com aquelas armaduras o melhor trabalho que um adulto poderia ter. Via as bruxas nos filmes e ficava aterrorizada com a burrice daquelas velhas com verruga no nariz que usavam sua magia para o mal. E, agora, em pleno retorno de Saturno, Hannah está descobrindo que tem superpoderes.

Ela não está passando por isso sozinha. Tem alguns amigos seus ao redor do mundo que parecem estar passando por uma fase parecida. Só que ninguém comenta muito sobre isso pra evitar ser internado, morto ou pior. É um processo extremamente solitário e misterioso. Porque estes seres humanos especificamente? Porque agora? O mais notável é que nenhum deles tem algum tipo de treinamento, mestre ou experiência ancestral na área dos superpoderes. São jovens comuns, que vivem em grandes centros e, com muito medo e dúvidas, estão passando por uma transformação mágica.

Assim que Hannah descobriu o que estava acontecendo, decidiu contribuir ao máximo para que o processo acontecesse de maneira tranquila e rápida. Sentiu uma motivação e uma força para fazer tudo certo. Parou de fumar cigarro, beber alcool, fumar maconha, cortou açucar e carboidratos da dieta. Começou a correr de manha na praia, fazer práticas energéticas que aprendeu com uns xamãs e meditar. A única via de comunicação para seus questionamentos foi com Deus, passou a rezar todos os dias, intensamente. Se aquilo estava acontecendo com ela, só podia ser Divino.

Mas o processo começou a ficar sombrio. Suas orações passaram a ser interceptadas por seres que querem seduzir Hannah com poderes mágicos. Tudo, absolutamente tudo que Hannah pedia que acontecesse, acontecia na hora no seu campo energético.

Um dia ela sentiu que não estava pronta para criar e falava com Deus pedindo-lhe mais tempo, para que ela pudesse passar um tempo sem criar. Imediatamente seu segundo chackra (da criação e sexualidade) se fechou e toda energia sexual de seu corpo começou a secar. Ela passou um dia horrível sem energia sexual, sem interesse em nada, sentindo-se triste, querendo apenas que lhe deixassem em paz. A noite, disse a Deus que entendeu muito mais sua energia de criação, que era preciso criar sempre mas fora de si. Botar pra fora: escrever, dançar, pintar, tocar… E pediu toda sua energia de criação de volta. Imediatamente seu chakra e seu útero se inundaram de energia criativa e ela pode sentir a energia fluindo por todos seus canais e pontos meridianos, abrindo seu interesse na vida e sua alegria em estar viva de novo.

Outra vez, ela rezava usando uma linguagem bem carioca despreocupada. Dizia para Deus que estava completamente entregue a esse processo. “Eu estou all-in!” ela disse com convicção. Em alguns segundos sentiu um jato de energia saindo de suas costas: era sua vida. Estando all in foi interpretado por seila o que que a sua vida estava entregue, estava na mesa e assim lhe foi tirada. Foi nesse dia que Hannah começou a desconfiar que o que estava acontecendo não era tão divino assim. Mesmo assim, ela considerou que também poderia ser um teste. Deus queria que ela ficasse brava com ele para testar sua lealdade. Não se pode entregar poderes nas mãos de alguém que vai se irritar e mudar de time por qualquer coisa.

Que times? O time do bem e o time do mal. Da luz e das trevas. Do amor e do sofrimento.

As coisas continuaram acontecendo e muitas vezes Hannah falava uma frase com uma boa intenção e aquilo dava um jeito de se voltar contra ela. Ela uma vez dizia que queria ser um fluxo e não ter limites, o resultado foi que seu campo de energia deixou de ter limites e toda sua energia começou a se desintegrar em um fluxo. Ela começou a passar mal, a sentir tudo que passava perto dela, se sentiu fraca e percebeu que precisava retirar o que disse.

Aquilo começou a cansar muito Hannah que além de ter que lidar com aquela magia toda ainda estava acordando cedo pra se exercitar e depois trabalhando 8 horas por dia um emprego onde sua aparência e simpatia são essenciais. É um lugar onde ela precisa estar sempre bem e tranquila.

Hannah então decidiu renunciar a seus poderes. Ela não queria mais isso! Ela não queria mais fazer essa magia estranha que não vem do coração, que não leva em consideração o emocional humano, as idiossincrasias de uma pessoa, a boa intenção. É uma magia muito técnica, prática, lógica. E de lógica já basta a ciência. Aqui queremos fazer tudo que a ciência nos diz que não existe. S-t-y-l-e.

Mas não adiantou. Renunciar à magia adiantava durante um curto período de tempo, depois ela já estava de volta e lá estava Hannah sentindo todas as energias ao seu redor. Ela atingiu um estado de sensibilidade tão intenso que chegou a sentir o orgasmo masculino dentro de si durante uma transa. Aquilo estava a assustando. Ela estava sendo alvo de alguns ataques astrais também. Vozes vinham sussurrar em seu ouvido frases hipnóticas. Ela sentia um energia sendo jogada nela de vez em quando, algo ruim, algum ataque estranho. Tudo isso começou a ser demais pra uma mente pouco treinada que tem necessidade de entender, classificar e julgar tudo. Por mais mente aberta que sejamos, a mente não dá conta de um processo desse. E quem não tem a prática da meditação já muito aguçada, se perde fácil.

Por isso Hannah optou por tomar alguns remédio psiquiátricos que fecham toda essa abertura. A diferença entre o xamã e o esquizofrênico é que o xamã controla sua loucura e o esquizofrênico é controlado por ela. Hannah não estava conseguindo controlar sua loucura satisfatoriamente, estava sendo um processo sofrido demais e por isso resolveu tomar alguns remédios para fechar sua abertura por um tempo, enquanto buscava um mestre ou um terapeuta, alguém que possa ajudá-la nesse processo mesmo sabendo que o xamã aprende sozinho.

Só que os remédios a colocam em um estado oposto e muito mais sofrido. É um estado de ansiedade, preguiça, falta de força de vontade… Ela voltou a fumar, beber, comer açucar, não faz mais exercícios, não reza mais… Está o tempo todo com preguiça, meio ansiosa, engordando… Ela sente falta da sua força, da sua energia vital que foi totalmente tirada pelos remédios. Ela não sente mais energia de alguém por simplesmente sentar ao seu lado mas também não sente mais nada. Virou um zumbi. Vida material, trabalho casa, trabalho casa.

E agora? Dentre qual dos extremos ela quer estar? É preciso cair pros dois extremos? Existe um caminho do meio? Como encontrar o caminho do meio? Como trilhar um caminho menos radical?

Deus, nos ajude a responder.

Maria

Ela vive esse dilema há anos: sair ou não sair de casa. Maria vive com a mãe e a avó em um apartamento de 400m2 na beira da praia de Ipanema. Seu quarto tem 30m2 e é seu templo. Sua vida acontece dentro do seu quarto. Ela canta, dança, planta, lê, descansa, medita, come, transa… tudo no seu quartinho lindo. Nas paredes do quarto estão os quadros que pinta dentro dele, mantras que devem ser repetidos ao seu inconsciente e um enorme apanhador de sonhos mágico feito por uma tribo xamânica peruana na noite de ano novo. Seus livros coloridos e interessantes enchem as prateleiras. A parede laranja estimula seu segundo chakra e sua feminilidade.

Maria está em um processo interno muito peculiar, vem experimentando uma abertura emocional, física e espiritual intensa. Para lidar com tudo isso que está acontecendo ela precisa desse espaço de tranquilidade. E não é só o seu quarto mas o fato de que ela não precisa se preocupar com nada além do seu quarto na vida. Não lava, não passa, não cozinha, não arruma… Seu espaço é 100% cuidado por outras pessoas para que ela só entre e faça o que seu coração deseja. Para que ela possa focar em outras reflexões, nem melhores e nem piores mas diferentes com certeza. Ela tem todo tempo e tranquilidade do mundo para enfrentar seus demônios internos, para realizar rituais de cura, para passar horas a fio apenas refletindo sobre o jogo da vida e as leis universais.

Se não existissem os outros que com ela vivem, seria tudo uma vida de contos de fada. Mas não é. Maria paga um preço muito muito alto por essa “tranquilidade espacial”. Ela é a bengala da vida da sua mãe e avó que sentem-se no direito de diagnosticá-la semanalmente. Quando a bengala está servindo direitinho, sem muitas reclamações e revoltas, fazendo seu papelzinho de filha doce e calma, ela está bem. Mas frequentemente se revolta e sente raiva desse papel, raiva dessa função, raiva dessa triste família, aí “você não está bem”. Repetiram tanto essa frase a vida inteira que Maria já internalizou e nunca de fato está bem. Está sempre sofrendo, querendo se curar, lutando pra melhorar, se sentindo despreparada e com medo.

Elas não admitem que Maria se envolva com “espiritualidade”, erros não são permitidos jamais. Se Maria cometeu um erro aos 15 anos de idade, hoje com 30 ainda tem que ouvir sobre ele. E ela cometeu alguns erros na sua busca espiritual que foram fatais pra sua família que não compreende que sua vida não tem o menor sentido se não nessa busca e que aprendemos com os erros a trilhar outros caminhos. Podemos perder nosso progresso mas a direção ainda é a mesma. Para a mãe e a avó, a vida resume-se a trabalho e marido. Se essas áreas estão cobertas, está tudo certo na vida da pessoa, qualquer necessidade a mais é loucura. Por causa disso, Maria vê-se obrigada a entrar em contato com a energia da mentira frequentemente. Uma energia que ela mesma abomina.

Ela tem que ouvir que “não vai conseguir” qualquer coisa que tente fazer. Porque elas não conseguiram e nunca sequer sentiram a energia do “conseguir” em nada que fizeram. A única crença que elas tem é de que o mundo é mal, perigoso, tudo é muito difícil e injusto. Ela convive com a negatividade o tempo todo e é abusada a manter-se nessa negatividade, perpetuar essa tristeza e esse fracasso. São estas seus ancestrais recentes, aqueles que devem apoiar a sua realização estão torcendo pelo seu fracasso.

Neste clima então ela se vê com a difícil decisão de sair de casa e ir morar em um quarto de menos de 10m2. Cabe uma cama e um pequeno armário além do mínimo espaço para ficar em pé ao lado da cama. Mas ela estaria livre dos ataques astrais e físicos dos seus familiares. Mas… onde dançar? Pintar? Plantar? Amar? Pular? Meditar? Como as outras pessoas fazem isso tudo?

Ela está inclinada para o lado da mudança. Ela sonha em morar sozinha desde que tem 15 anos mas demorou demais para perceber que para realizar este sonho ela teria que fazê-lo sozinha. Que ninguém nunca vai ajudá-la a se libertar desse papel de bengala que lhe colocaram. E muitas pessoas estão lhe apoiando e ensinando a fazer tudo o que faz em espaços públicos. A viver mais a vida fora do quarto. Ir pra rua, ir pra fora.

Mas… não é pedir-se demais? Além de tudo que ela já está passando espiritualmente, ainda vai colocar outro elemento de mudança na sua vida? Não é demais? Não estará ela sendo violenta consigo mesma novamente? Se agredindo e obrigando seu lado criança a crescer a força? Ela sempre pensou que o dia que saísse de casa seria o mesmo dia que poderia ficar pra sempre. Ela resolveria todas as questões que tinha que resolver sem sair de casa. Faria sua paz com a família e assumiria as responsabilidades de cuidar de si sem sair. Mas não será isso pedir-se demais? Resolver tudo mergulhada na situação é clamar por uma intensidade desnecessária. Às vezes se afastar é a melhor forma de curar e de abrir a visão em cima de uma situação.

São muitas dúvidas. Ela tem até sexta para decidir.

Gabriela

Por onde Gabriela passa, ela destrói tudo. Desde pequena que começou a destruir vidas. Destruiu o casamento de seus pais, destruiu a vida da sua mãe, destruiu a dignidade do seu pai. Destruiu a personalidade da sua irmã. Destruiu a vida dos homens que namorou. Destruiu a vida do amor da sua vida. Destruiu. Destruiu. Destruiu.

Ao seu redor, a felicidade parece se extinguir. As pessoas aos poucos vão caindo em um sofrimento e depressão profunda. É um incômodo constante estar perto dela. Amizades fortes se separam. Ela quebra grupos. Quebra pessoas. Ela se envergonha do seu ambiente familiar, pessoas que tem tudo que precisam pra ser feliz mas que caíram todas em um ininterrupto sofrimento sem fim.

Ninguém é capaz de amá-la. Ela não permite que ninguém se aproxime. Porque ela não aguenta mais ver tanta destruição, tanto sofrimento, tanta separação por onde passa. Ela tem medo do efeito que ela tem em pessoas. O amor tem muitas polaridades, é a energia que move todos os seres humanos. O excesso de amor, a falta de amor, as estratégias para conseguir amor ou fugir dele são o que faz com que sejamos quem somos. E Gabriela amava demais. Ela amava tanto que acabou se destruindo também. Se apaixonou pelo primeiro Aladdin que encontrou e, sem uma garantia, amou-o com todo seu corpo e toda sua força. Até hoje ele a culpa de ter destruído sua vida também. Assim como fez seu pai.

Ela destrói todas as oportunidades que tem de se libertar dessas pessoas a quem julga ter destruído a vida. Porque sente que precisa servi-los de alguma forma. Que precisa compensar por ter destruído suas vidas e se sacrificar para que eles sejam minimamente felizes. Não se permite ter raiva desse papel em que a colocaram sem sua permissão, não se permite ter raiva de ninguém. Ela será pra sempre uma escrava, mendigando o perdão do outro. Mendigando restinhos de amor que ainda possam sentir por ela. Enquanto ela abre mão de toda sua juventude, sua força, seus talentos para seguir de capacho para aqueles que ela destruiu. Ela tenta colar os cacos que restaram das suas relações passadas, fica tão absorvida nessa missão que não consegue mais criar novas relações.

Um dia Gabriela estava diante de um mestre implorando pelo fim de seu sofrimento e do sofrimento daquelas pessoas a quem destruiu a vida. O mestre lhe perguntou como foi que destruiu essas pessoas? Não soube responder… Eles nunca sequer lhe dignaram a uma explicação. Soltaram essa acusação em momentos aleatórios e aquilo foi ficando no fundo do seu subconsciente definindo tudo que ela é hoje em dia. O mestre então perguntou se alguém já tinha destruído a sua vida? Imediatamente Gabriela sentiu que todas essas pessoas que lhe acusavam tinham destruído sua vida de alguma maneira profunda e que eram elas que impediam que ela fosse feliz. Também lembrou de mais umas tantas que tinham destruído sua vida de outras maneiras. Ela se lembrava perfeitamente de alguns rostos com ódio e desejo de vingança. Mordia os lábios até escorrer sangue pensando no quanto os faria sofrer. Mas imediatamente se arrependia daquele tipo de emoção e se sentia totalmente impotente para mudar sua vida.

“Eu estraguei tudo!” dizia ela. Aos 29 anos, viver estava difícil demais. Ela não se aguentava mais, sabotando todos os momentos de felicidade possível. Sabotando cada encontro, cada entrevista, cada flerte, cada amizade nova.

O mestre então lhe disse em uma voz calma, alegre e baixinha:

“Ninguém tem o poder de destruir a vida de ninguém. Estamos encarnados nesta dimensão, neste planeta, neste tempo para evoluir. Para auxiliar o processo de transição de Eras. Gaia está evoluindo e nós estamos de carona. Você pediu por cada uma destas experiências que você hoje considera destrutiva. A sua energia queria passar pelo processo de fragmentação e reconstrução que vem com a experiência da destruição interna e externa. E você pode sim ter auxiliado outras pessoas nestes processos pelos quais eles mesmos pediram. O que trava o processo é ficar parado nesse jogo de acusação e não se permitir reconstruir. Ficam presas àquilo que eram antes da transformação e por isso não conseguem se deixar evoluir. Apegar-se à destruição, aí sim, é destruir-se. É preciso olhar pra ela como o que ela é, um degrau na missão de evolução que você veio viver porque quis. E deixá-la pra trás junto com a culpa de ser este degrau na vida do outro.”

Gabriela se sentiu aliviada com aquelas palavras. Mas voltou pra casa e no dia seguinte se convenceu de que aquele papo nova era não era pra ela. E que devia continuar apegada à destruição porque assim sofreria mais e a sua família a amaria mais se ela estivesse sofrendo do que se ela estivesse feliz. Ela já estava tão viciada na energia da culpa que nem seu corpo aguentaria a liberação daquela energia assim, de um dia pro outro. Quem aquele mestre achava que era? Por isso que ela era anarquista. Não queria ninguém lhe falando verdade nenhuma. Queria sofrer pra sempre.