O Black Bloc na perspectiva da não-violência e gestão da mente

Desde Junho que o Brasil vive uma nova dinâmica na política de rua. Protestos voltaram a fazer parte do cotidiano dos jovens, especialmente na cidade do Rio de Janeiro. Após a redução do aumento da tarifa no transporte público que desencadeou a onda inicial de manifestações ao redor de todo o país, outras anseios e indignações tomaram a pauta e as energias coletivas, incentivando novas formas de organização e a permanência do estado de debate e mobilização contra a desigualdade social, pelo afastamento do governador Sérgio Cabral, pela desmilitarização da polícia militar, democratização da dos meios de comunicação, tarifa zero, educação de qualidade para todos, fim da criminalização da pobreza e de políticas pacificadoras fajutas nas favelas, entre muitas outras.

Projetos de nação e de mundo alternativos ao vigente voltaram a ser debatidos especialmente por ativistas independentes e desinstitucionalizados. O protagonismo desse novo processo político saiu dos desgastados partidos que assumiram clara dificuldade em dialogar com as dinâmicas políticas em rede e descentralizadas, ou seja, sem representantes ou hierarquias. Entre essas novas estratégias de organização, chama-se a atenção para a interação rede-rua. As grandes mobilizações passaram a ser convocadas por determinados perfis de grupos hackers como o Anonymous (e suas várias ramificações), articuladas através de hastags variadas como #protestosbr ou #protestosrj, organizadas dentro de grupos nas redes sociais. Ao mesmo tempo, seguiu-se o modelo global de ocupações dos espaços públicos enquanto representação de retomada do território comum de encontro nas praças e ruas em geral. Nasceu o Ocupa Cabral (acampamento de ativistas que reivindicavam um governo mais justo e o afastamento do atual governador na frente da sua moradia em um apartamento de luxo no Leblon), o Ocupa Câmara (acampamento de ativistas interna e externamente à Câmara dos Vereadores na Cinelândia focado no acompanhamento de processos legislativos municipais, especialmente da CPI dos Transportes) e diversas ocupações autônomas menores em diversos bairros da cidade. Estes espaços ocupados tornaram-se focos de interação presencial dos perfis em rede, desencadeando diversos eventos culturais de troca de experiências e articulações entre coletivos antes dispersos, debates e formações sobre temas variados e vivência da autogestão tão teorizada pelos acadêmicos anarquistas antepassados.

Em resumo, toda esta complexa e encantadora trama de organização política descontrolada e autônoma dos governos em gestão somada com atos quase diários em protesto e a explanação das mais diversas injustiças e opressões dos povos pelos seus representantes democraticamente eleitos, passou realmente a incomodar o sistema vigente, atingindo até aos protegidos empresários e lobbistas do status quo. Em resposta, o estado endureceu suas medidas de repressões e vigilância em cima dos ativistas que passaram a proporcionalmente radicalizar a resistência em respostas enérgicas à cada vez maior repressão violenta do estado incorporado na Polícia Militar do Rio de Janeiro (PMRJ).

Este ciclo vicioso de competição de forças entre a PMRJ e os manifestantes passou por diversos estágios de amadurecimento em ambos os lados. Grupos especializados na repressão estão sendo treinados por polícias estrangeiras enquanto concretizam-se grupos focados na resistência enérgica pelo lado dos ativistas, o mais famoso deles é o Black Bloc. Jamais se assumindo enquanto grupo organizado, o Black Bloc é uma tática de defesa dos manifestantes da repressão e tentativa de silenciar os protestos pelo estado. Embora no Brasil a tática tenha uma atuação política no sentido de soltar notas, convocar atos, fazer mídia nas redes sociais, sabe-se teoricamente impossível a associação de pessoas específicas à liderança deste organismo social. Seria o mesmo que nomear representantes dos que viram bananeiras ou dão estrelas na praia. É uma expressão física que pode ser incorporada por qualquer um que se prepare minimamente. Obviamente optar por essa estratégia de organização não é a toa, enquanto tática não existem lideranças a serem eliminadas ou encarceradas, dificultando a ação de extermínio de inimigos pelo estado.

Segundo a Wikipedia: “Black bloc é o nome dado a uma tática de ação direta, de corte anarquista, caracterizada pela ação de grupos de afinidade, mascarados e vestidos de preto que se reúnem para protestar em manifestações de rua, utilizando-se da propaganda pela ação para desafiar o establishment e as forças da ordem. Do que se pode apurar, esses grupos são estruturas efêmeras, informais, não hierárquicas e descentralizadas. Unidos, adquirem força suficiente para confrontar a polícia, bem como atacar e destruir propriedades públicas e privadas. As roupas e máscaras pretas, que dão nome ao grupo e à tática, visam garantir o anonimato dos indivíduos participantes, caracterizando-os, em conjunto, como um único e imenso bloco.

A expressão Schwarzer Block nasce no início dos anos 1980 na Alemanha. Foi de fato utilizada pela primeira vez por parte da polícia alemã durante as manifestações e passeatas antinucleares e em favor da Rote Armee Fraktion, geralmente usavam roupas e máscaras negras para que o conjunto dos manifestantes formasse uma massa compacta e bem identificável, seja para parecerem numericamente superiores, seja para atraírem a solidariedade e a ajuda de outros grupos ideologicamente afins, durante as manifestações. As máscaras e os gorros ou capacetes têm a função de proteger os membros do grupo e ao mesmo tempo impedir a identificação dos participantes, por parte da polícia.”

Embora a mídia tenha insistido em pautar os manifestantes que estão na rua desde junho como antagonicos: os pacíficos e os vândalos, essa separação nunca existiu. Desde a grande marcha do dia 20 de Junho em que um milhão de pessoas caminharam na Presidente Vargas e a polícia reprimiu violentamente os que se aproximavam da prefeitura, ficou claro a necessidade de resistir a essa tentativa de silenciar o povo pela parte do estado. A dinâmica dos atos sempre funcionou em duas etapas, um momento inicial de politização e confraternização em caminhada (que pode ser interpretado como pacifico) e um segundo momento de confronto entre os opressores e os oprimidos. Não é de hoje e não é daqui que os protestos funcionam assim. Não existem duas manifestações separadas no mesmo percurso, essa é a dinâmica normal de funcionamento ao redor de todo o mundo. E quanto maior vão ficando as tensões, quanto mais exposto ficam as contradições do sistema e as injustiças e desigualdades pelas quais passam os homens geridos por uma classe política em crise de representatividade, mais radical fica esse confronto.

Pode-se fazer uma boa análise do estado mental de um povo de uma região à partir do modo como se manifesta. Não é coincidência que em todo o Brasil as manifestações rapidamente perderam força, sucumbindo às pressões do dia a dia e ao desinteresse daqueles que não lutam sem propósito concreto como era a diminuição do aumento da tarifa (os famosos 20 centavos). Porém no Rio de Janeiro elas continuaram e uma cultura política de rua renasceu entre os jovens da cidade. O Rio, além de já estar em processo de mobilização política jovem há algum tempo (Rio+20, OcupaRio, campanha eleitoral do Marcelo Freixo), é foco da maior desigualdade social no país ao mesmo tempo em que é a cidade que mais recebe investimentos estrangeiros e agora cede dos megaeventos absurdos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas.

Tamanha incoerência que é a cidade do Rio de Janeiro não deixa de afetar o inconsciente dos cariocas. A revolta já ultrapassa os limites do comportamento de aceitação e moderação sugeridos pela sociedade moralista e supercatólica brasileira. Os corações e as mentes estão entupidos de ódio, inveja, rancor e, a mais venenosa, rejeição. A rejeição do estado que incorpora o papel do pai na mente do cidadão. O estado-pai, que deveria prover para sua família-cidadã e que coloca cada vez mais o povo nessa posição de dependência com as políticas de distribuição de migalhas do governo do Partido dos Trabalhadores, não dá conta de disfarçar a corrupção de suas lideranças, o descaso com os que pagam impostos e a clara proteção da elite empresarial milionária da Zona Sul. É a total rejeição dos que mais necessitam de auxílio do estado que faz com que o povo torne o seu desespero em ações concretas de repúdio e violência, assim como uma criança que esperneia para chamar atenção de seu pai que apenas dá atenção ao irmão mais novo.

Sendo assim, até mesmo aqueles que não sentem o impulso incontrolável da psicologia das massas de Freud de libertar seus instintos mais reprimidos quando em grupo (máscarados e equipados) e quebrar todos os bancos e seus lucros bilionários e jogar coquetéis molotov no batalhão de choque da PMRJ que revida com centenas de bombas que equivalem, cada uma, ao salário de um professor da rede estadual e municipal de educação, consideram o Black Bloc legítimo enquanto defensor do povo. Assim como a lei que prende o pai que falta com o pagamento da pensão dos seus filhos, o Black Bloc representa a justiça nas mãos do povo abandonado e explorado.

O preocupante, no entanto, é o rumo que estes salvadores mascarados podem dar ao futuro do país. Enquanto as ações de resistência vem se radicalizando proporcionalmente às politicas de repressão do estado e à formação dos jovens militantes, milhares dos que compareciam aos protestos preferem ficar em casa e acompanhar via streaming pela internet. Não por não estarem de acordo com as ações mas por medo, nem todos tem tanta coragem ou tanto ódio a ponto de estarem dispostos a levar balas de borracha e ingerir gases tóxicos seguidamente. Assim a frequência nas manifestações diminui e a mídia consegue proliferar a ideia de que não há mais pelo o que lutar, de que o povo voltou a estar satisfeito e que agora somente os vândalos sem causa estão nas ruas. A massa acredita e vence a elite opressora que segue explorando e oprimindo livremente.

Outro resultado preocupante é a vitória da revolução liderada por estas práticas violentas. O sistema vigente é fundamentado na violência. Vivemos a era da guerra aérea, psicológica e cibernética. Vende-se violência no cinema, nos livros, nos jogos de video-game, no sexo (fetiche), na comunicação, nas relações interpessoais, nos processos de exploração dos recursos naturais, na hierarquia das instituições, na relação chefe-empregado, dominante-dominado, pai-filho, professor-aluno, etc. Será que precisamos de uma revolução que vença baseada na mesma ideologia já posta? Isso sem contar que não há como competir com o arsenal bélico ultramoderno de qualquer país do mundo hoje, então se propor a vencer um sistema com as armas do próprio sistema não seria suicídio? Podemos interpretar inclusive essa proposta de revolução enquanto vontade de autodestruição da sua vanguarda (e, se vitoriosa, autodestruição do mundo).

Uma revolução necessária é aquela baseada em outros valores, os que foram esquecidos no atual sistema mas que deram início ao mesmo, há muitos anos atrás, na Revolução Francesa: igualdade, liberdade e solidariedade. Claro que estes conceitos passaram por diversas modificações de acordo com a evolução do homem e do mundo que passou pelo capitalismo e o neoliberalismo mas basicamente são os mesmos propulsores da verdadeira mudança. Igualdade: a verdade de que todos somos um, liberdade: o empoderamento do homem livre das hierarquias e do patriarcado e a cultura da autogestão de todos os processos da vida humana assim como é na natureza, solidariedade: amor incondicional e aproprietário.

Porém vivemos um terrível paradoxo, Terry Eagleton escreve, “se, com muita frequência, conhecer o mundo significa atravessar complexas camadas de autodecepção, conhecer a si mesmo envolve ainda mais disso. Somente pessoas excepcionalmente seguras podem ter a coragem de se confrontar dessa maneira, sem racionalizar o que desenterram e nem se deixar consumir pela culpa estéril. Só alguém certo de estar recebendo amor e confiança pode alcançar essa espécie de segurança.” Sabemos que uma revolução somente é verdadeira se fundamentada no amor e não no seu oposto, a violência. Porém para fazer essa revolução precisamos nos sentir seguros para criar os estados mentais ideais para isso. E o que fazemos, hoje, ao resistir violentamente é exatamente o oposto, proliferamos a insegurança e o ódio. Mantemos as pessoas assustadas em casa assistindo à autonomeada vanguarda se manifestando em estado mental absolutamente oposto e não criamos a situação de amor e confiança necessárias para a criação dos estados mentais de real oposição ao sistema vigente.

Enquanto proliferarmos o medo, o ódio, a vingança e a inveja estaremos apenas trabalhando para a manutenção de tudo aquilo que já não suportamos. Nesta perspectiva, concluo então, consciente das possíveis críticas fundamentalistas dos violentos, que o Black Bloc está a serviço inconsciente do sistema. Proliferando os estados mentais ideais para que o povo jamais se sinta seguro para se amar e, à partir daí, fazer a revolução que tanto precisamos e sonhamos.

Leave a Reply

Your email address will not be published.