O proselitismo vivo na Rádio Interferência

Na Rádio Interferência diz-se sempre não a qualquer tipo de proselitismo. Até o dia em que diz-se sim.

Faz uma semana que saí da reunião da rádio aos prantos e decidi nunca mais retornar. Apaguei meu programa da grade e cortei amizades recentemente feitas no espaço comum onde todos dizem encantar-se com a convivência das diferenças. Saí aos prantos não por ter sido desrespeitada por uma daquelas lideranças que não se admitem lideranças (aquela ladainha de coletivo horizontal, não hierárquico, não representativo) então se veem livres pra comportar-se como anarcoirresponsáveis e meros idiotas, mas sim porque sofri uma opressão proselitista exatamente onde me prometeram que isso jamais aconteceria. Ele me prometeu tantas vezes.

Proselitismo significa considerar superior ou inferior qualquer tipo de prosa, ou seja, de crença, de discurso, de esperança, de sonho, de religião, de opção política ou sexual, etc.. Um espaço não proselitista é um espaço que respeita a todas as opções e histórias de vida igualmente, sem nunca considerar uma ideia ou pessoa melhor ou pior que a outra. Negros, mulheres, lésbicas, gays, comunistas, socialistas, anarquistas, partidários, independentes, fanfarrões, playboys, periferia, professores e alunos convivem respeitando mutuamente as ideias proliferadas no microfone e pelo espectro eletromagnético.

Porém o mesmo respeito não acontece com os esotéricos. Fui chamada em plena reunião de alucinada por causa da minha crença nos astros e nas cartas do Tarot. Ele disse que acha que eu sou tão perdida que decido meu caminho pelas cartas. Gritava: “A ALUCINADA DA PENNY!”. Tudo isso porque lhe dei uma informação que recebi durante o dia de que a Mídia Ninja e a ex-diretora da escola de comunicação da UFRJ, Ivana Bentes, tinham planos em transformar o Pontão (tradicional espaço de resistência da cultura digital) em um Lab-Ninja (núcleo oportunista da rede fora do eixo que fará campanha para o PT esse ano). Como estudante da ECO, já vejo movimentações de aproveitamento dos recursos (financeiros e humanos) da escola para o fortalecimento do Fora do Eixo desde Junho mas nunca me tinha sido confirmada tal movimentação para cima do Pontão. Nem por ele que lá trabalha. Pensei mesmo que fosse uma informação privilegiada e disse: “Cuidado. Acho que você não sabe pra quem você está trabalhando”. Ele tomou isso como uma agressão ao trabalho de resistência que faz no espaço do Pontão e me respondeu naquela estratégia baixa de desqualificação pessoal em cima das minhas práticas e crenças de vida. Como se isso fosse mudar a realidade da tomada do Pontão pelo Fora do Eixo.

O seu nervosismo com a minha afirmação apenas garante que a carapuça serviu. Mas ele seguiu sem dar tréguas ou chance de debate me agredindo com base no pouco conhecimento sobre a minha vida pessoal que veio acumulando nestes últimos 6 meses que convivemos diariamente no espaço da rádio. E sempre estivemos lado a lado. Eu confiei nele.

No meio da briga, eu percebi o seu nervosismo e a sua desqualificação da minha pessoa para evitar o debate político e chamei atenção a este fato. Ele, ainda mais desesperado, olhou pra mim com um desprezo total da minha inteligência e disse: “Leitura política? De você? Eu não vejo.” Sem saber nada que eu já fiz na minha vida, de que processos políticos já participei ou o que já vivi. Simplesmente não fico dando carteirada de experiências passadas. Não construo com gente que considera esse tipo de legitimidade importante. Construo com gente que constrói com gente, quem quer que seja.

As agressões seguiram. Enquanto ele as proliferava em total descontrole, eu as absorvia lhes dando o peso que merecem todas as palavras. Existe um enorme descompasso entre pessoas que as valorizam muito e as valorizam nada. Ele é uma destas de palavras vazias, não respeita nem as suas, nem as dos outros. As usa como isca para capturar jovens iludidos e depois esquece ou espera que aconteçam magicamente. Eu já não acredito em mais nada que ele diz. Tudo me confunde e transtorna pela tamanha aleatoriedade e desconexão de suas falas. E lá foi ele, vomitando palavras malignas em cima de mim sem se importar com as consequências do dia seguinte. Como lhe é de praxe.

Ao final de tudo, dei meu parecer: “Nunca mais falo com você. Só não te dou um tapa na cara porque você é um velho.” E é isso que ele é. Sua incapacidade de entender meu esoterismo, meu esforço em criar novos paradigmas de pensamento e me fazer de cobaia na construção de um novo mundo é característica dessa geração antiquada que hoje encontra-se ditando as regras desse mundo de merda. Como se essa arrogância humana de acreditar apenas no que o homem pode provar através da ciência racional (dominada pelas grandes corporações de pesquisa privada e a academia) fosse sã. E a minha crença em conhecimentos milenares, tradicionais, cabalísticos, mitológicos, cosmológicos que me guiam e apoiam em meio a toda essa escuridão capitalista em que vivo fosse alucinação.

Mal sabe ele que, na minha alucinação esotérica, eu já vinha recebendo inúmeros sinais me chamando atenção para um ciclo que precisava ser encerrado. Eu nunca esperei que fosse ser o ciclo que iniciei com tanto amor e dedicação na Rádio Interferência da qual sou programadora desde 2006. Mas a hipocrisia proselitista acabou por fazer cair diversas fichas, conectar os pontos e representar a escolha de outro caminho onde depositarei minhas energias. Ficam meus votos de vida longa à Rádio Interferência. Ainda frequentarei a rádio pra fazer um programa semanal às quintas-feiras sobre tecnoxamanismo e, durante meu horário autônomo, ele está proibido de pisar na sala, mantenho minhas palavras que valorizo: nunca mais falo com ele. Preciso saber onde deposito a semestralidade.

Concluo deixando uma dica para esses tempos escuros de repressão às Rádios Livres antes da Copa do Mundo: está cada vez mais difícil manter um coletivo forte e unido. Talvez seja pela liquidez das relações entre as pessoas ou pela efemeridade dos interesses nesse mundo em constante mudança. Independente dos motivos, devemos valorizar aqueles que ainda se dedicam ao coletivo ao invés de agredir e tratar como descartável qualquer um que se importa tanto com a causa que arrisca fazer algumas críticas a determinadas lideranças. E o coletivo precisa se posicionar em relação a injustiças e agressões pessoais constantemente repetidas pela mesma pessoa. Não sou a primeira e nem serei a última a sair da rádio por causa dele.

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