Que mundo chato!

Vejo coisas. Sombrias e futuras que me causam reflexões solitárias. Será que estou louca? Porque ninguém mais vê o que eu vejo? Ou será que muitos por aí veem também mas eu só não os conheci em Ipanema? Vejo o fim do mundo em construção. Vejo a técnica substituindo a potência humana. Vejo a técnica substituindo a vida e se alimentando de toda independência que nos resta. Vejo a ciência e a mídia nos dizendo o que é verdade e o que é mentira e nos estuprando com seus artigos e criações de um mundo que não nos serve mais. Que saco esse mundo onde contos épicos não tem espaço para acontecer. Será que Aquiles sabia protagonizar uma epopéia? Meu auto corretor sequer conhece a palavra epopéia. A fina linha pontilhada vermelha em baixo da palavra escrita, por alguns milésimos de segundo, me faz duvidar se os feitos heroicos de outras épocas de fato existiram. Será que a máquina sabe me dizer melhor do que eu mesma o que é correto e o que é lapso de digitação?

Penso nos Mayas e nas pirâmides. Pedra sobre pedra construída sem mãos, apenas energia e pensamento. Em um outro mundo, tudo era energia. Todos éramos monges e xamãs e já nascíamos em uma cultura projetada para o controle da mente e aumento da produtividade energética inerente do corpo humano. Hoje a ciência nos comprova que é impossível enquanto os espíritos Mayas nos olham de cima às gargalhadas, riem da nossa evolução ao contrário. Queremos tanto o poder de realizar tudo sem ter o mínimo trabalho interno. Tudo pra fora. Enquanto internamente buscamos por uma normalidade ilusória que gera sofrimento e anti depressivos. Que mundo CHATO.

Estamos mergulhados naquela escuridão que vem antes da tempestade. Em breve, a grande aventura vai começar. A maior história de todos os tempos começa com a maior burrice de todos os tempos. Uma globalização da estupidez que pressiona a mãe terra aos seus limites finais, desrespeitando tudo que ela nos dá como se fosse sua mera obrigação. O estupro diário do maior animal que é esse planeta não vai acabar com a morte da única fonte de vida. Belisque um cavalo 500 vezes por dia, todos os dias, durante um século, incentivando através de postulemas, teorados, artigulações e muita televiolência que todos façam o mesmo com seus cavalos, todos os dias, durante um século. Até quando os cavalos seguirão nos servindo?

Mas a cegueira segue. Repetimos as mesmas conferências, as mesmas reuniões de planejamento, lutamos pelas mesmas políticas públicas, votamos nos mesmos governantes, criamos as mesmas novas organizações, vamos aos mesmos protestos, sentamos nas mesmas assembleias… “Mas não são as mesmas, Penny! Esta é a conferência clima 2014, aquela era a conferência ambiente vivo 2012. Esta é a assembleia da Bahia de Guanabara, aquela era a assembleia do Monte Fuji. Esta é a reunião de planejamento para as bacias hidrográficas do Itaimbibi, aquela era a reunião de planejamento para jovens educadores floricultores. Este é o Lula, aquela era a Dilma. Este é o Ban Ki Moon, aquele era Vargas. Esta é a Marcha pela liberdade de Hideki, aquela era a marcha Fora Cabral. Naquela época MST e CUT eram aliados, hoje eles são oposição…” Será possível tamanha falta de capacidade de análise sistêmica e abstração. O dia a dia da burocracia, da falta de símbolos, da falta de atenção ao redor está acabando com a nossa capacidade de perceber que estamos nos ocupando externamente de atividades de salvação ilusórias e idênticas! Estamos presos nos padrões da destruição. Einstein já dizia, insanidade é fazer a mesma coisa diversas vezes e esperar resultados diferentes.

A política está morta. O dia seguinte da revolução é exatamente igual ao dia anterior. É preciso se curar internamente, acreditar na potência energética do corpo humano, nas redes invisíveis da mente, articular as ecovilas, a permacultura, as plantas de poder, a nova espiritualidade, o xamanismo, os festivais de trance, educação livre, relacionamentos libertos, sair das cidades, voltar por campo, economia da abundância, fluxos, trocas… Para aí pensar-se o que criar com toda tecnologia que temos de modo que seja libertador e não dominador. E viver intensamente criando novas maneiras de estar na realidade. Desinstalando os programas mentais anteriores. Mudar o mundo é resultado de viver um novo mundo agora.

Viveremos 200 anos porque desde o dia em que nascemos todos nos dirão que o ser humano vive 200 anos. Não haverão estatísticas porque acreditaremos em possibilidades antes de médias. Teremos novos símbolos, novos rituais, novos mitos. Homens e mulheres serão guerreiros da mente, viverão em parceria e a ideia de inferioridade será apagada no nosso sistema operacional. Milhares de mundos florescerão de acordo com as comunidades que os criarem. Viajar o mundo será como viajar dimensões. Ninguém tentará impor uma única ideia de mundo por motivos comerciais, para facilitar transações. Produtos exóticos de cada continente seguirão sendo exóticos e serão valorizados por isso. Não haverá miséria porque cada mundo terá seu próprio modo de existir e o que é miséria para um mundo pode ser estado de provação positiva para outro.

Toda quarta-feira sentaremos ao redor da fogueira e a comunidade conversará sobre o que precisa. Entraremos em consenso sobre tudo. Quando alguém fizer algo reprovável, não haverá leis. A comunidade se encontrará para julgar. Viveremos em estados tribais ultra conectados através da mente e da tecnologia. Tudo será menos limpo e por isso seremos mais resistentes a bactérias e doenças naturalmente. Conforto será superficial, algo que acontece de vez em quando, em épocas especiais. Trabalharemos muito mais internamente do que externamente. Não teremos medo de meditar. Toda sexta-feira será dia de rezar para os novos deuses (antigos Deuses travestidos) e rezaremos dançando trance a noite inteira. Durante o festival, refletiremos, amaremos e nos curaremos sempre de alguma dor ancestral que carregamos no sangue. Seremos encarregados da redenção de tanta dor passada que segue conosco nos campos morfogenéticos das constelações familiares. Faremos parte de uma pequena parcela da humanidade que sobreviveu e teremos que repensar toda a existência no planeta.

Eu quero aventuras, exploração de mares mentais com nada além das estrelas como guia. Quero libertar minhas emoções livremente e não ter vergonha de sentir. Quero comer, beber e levitar ao mesmo tempo. Quero conversar telepaticamente com todos na rua. Quero acessar uma rede invisível de conhecimento e canalizar tudo que preciso saber sem ter que depender de Google ou qualquer programa elétrico. Quero acreditar em outras possibilidades de existência. E quero que a ciência se foda.

Mas antes de tudo isso haverá guerras, desastres, robôs assassinos… Até esse pessoal todo que está no poder morrer de velhice, seguirão tentando impor o que conhecem. Presos em estados mentais cristalizados, impossíveis de mudar. Eles não conseguem se ver. Somos governados por crianças mimadas em corpos flácidos onde não fluem ideias e sim reclamação. Falar sobre energia com esses caras é realmente piada.

O fim do mundo está chegando. Será que sou fanática por me preocupar com isso? Há sempre os que resistem, que riem, que zombam dessas ideias insanas enquanto estão confortavelmente no seu ar-condicionado olhando como um zumbi para a tela do computador. Estão ali entregues ao que a máquina lhe diz, ao que o professor lhe diz, ao que as estatísticas lhe dizem, ao que as placas na rua lhe dizem, ao que as leis lhe dizem… Completamente alienados do que seu coração lhe diz. Incapazes de criar. De alucinar. De viver intensamente. Ai que vida chata. Que dia a dia monótono. Será que é isso o que há pra nós? Será que é essa a epopéia contemporânea?

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