Daphne

São 3:00 horas da manhã e Daphne acorda de repente, ofegante, de um pesadelo. Mais um desses em que ela está fugindo de alguma coisa e corre desesperadamente no meio de uma mata profunda, jogando seu corpo ladeira abaixo contando com as árvores para lhe amortecer a queda. Dessa vez ela foge de Petistas vingativos que resolveram atacar a população, eles vem de todos os lados, carregados de paus e pedras, vestidos de vermelho. Normalmente ela sempre escapa das perseguições nos sonhos mas hoje eles conseguiram chegar até ela. Quando seu predador lhe encontra, ela reconhece sua face e identifica um velho amigo do colégio. Mesmo assim, ele lhe mal trata e ela, sem ver outra saída, usa sua magia contra ele. Uma magia que vem do medo e da raiva, do tipo que ela odeia. Ela acorda então aterrorizada com aquela maldade. Respira fundo e tenta se conectar com padrões de vibração mais altos, pensando em seu mestre e sentindo todo amor que ele lhe causa. Quando ela pensa nele, ela consegue sentir seu coração batendo forte e feliz. Repete alguns mantras, reza para seus protetores Arcanjo Miguel e São Jorge que não falham nunca. Agora está mais calma e sentindo-se muito melhor do que quando foi dormir.

Daphne não consegue deixar de pensar agora, nesse estado mais elevado, de todo caminho que percorreu até chegar aqui. Nesse tempo, nesse corpo, nessa mente e nessa casa. Ela sente outros tempos, em que ela também provocava pesadelo em outras pessoas e se alimentava das energias do medo e do horror. É algo que hoje em dia parece tão abominável e impossível para ela que ama tanto a vida, as pessoas e o mundo. Mas ela sabe que em algum tempo, as coisas não foram bem assim.

Tudo começou a milhares de anos atrás, quando Daphne não se chamava Daphne e o mundo era um lugar muito diferente. Ela era uma alquimista na França e trabalhava com círculos de mulheres muito poderosas. Elas eram bruxas que estudavam o poder das plantas medicinais. Naquela época, havia pouco acúmulo de registros das plantas e toda sua comunidade trabalhava em uma missão maravilhosa com a natureza, registrando cada descoberta de maneira empírica. Elas aprendiam tudo à partir da sensibilidade. Sentiam cada plantinha agindo em alguma parte do seu corpo e da sua mente. Criaram um grande arquivo de cura e pessoas de toda Europa começaram a buscar essa comunidade para se curar das mais diversas enfermidades físicas, emocionais e espirituais. Elas treinavam mais pessoas para que espalhassem esse conhecimento e viviam em muita união e amor. Sabiam claramente que estavam fazendo um trabalho para a humanidade em muita conexão com Deus e divino. Eram guiadas por muitos protetores e por uma bela egrégora de cura e amor. Estavam ali às ordens da cura e do feminino. Aquilo era um resgate desse poder matriarcal perdido nas épocas do Cálice e da Espada e das relações de parceria entre o feminino e o masculino na gestão de uma sociedade.

Não está muito claro pra Daphne o que foi mas, em algum ponto, alguma coisa deu errado. De alguma maneira, até hoje, ela carrega uma culpa por isso. Talvez por ter revelado demais, talvez por não ter sido capaz de ler os sinais mas um grande incêndio tomou a comunidade e dezenas de pessoas morreram. Todo o seu trabalho lhe foi tomado pela Igreja que tomou todo registro das plantas para si e escondeu aquela sabedoria ade eternum. As que não morreram no incêndio, foram queimadas na fogueira por bruxaria e aquele lugar foi apagado do mapa para o todo sempre.

Até hoje ela não se conforma com esse final frustrante daquela bela vida. Depois que morreu, ela não conseguia se perdoar e não conseguia perdoar a Deus por aquele acontecimento. Se aquilo terminou da maneira que terminou, Deus permitiu, a egrégora permitiu. Eles não foram sequer avisados para que salvassem um pouco do trabalho, as suas vidas e reprogramassem as suas missões. Como podiam estar tão conectadas com seu propósito divino e tudo acabar daquela maneira?

Daphne se rebelou contra Deus. Abandonou o trabalho da luz. E na sua vida seguinte, se entregou para um trabalho nas trevas. Tornou-se um grande mago negro que comandava todo um clã de feiticeiros que trabalhavam com acordos, com raiva, com dor, com horror. Foi um dos magos negros mais poderosos de toda história da humanidade e quando morreu passou a fazer o mesmo do astral, comandando uma egrégora de sofrimento. E assim passou algumas centenas de anos. Revoltada. Rebelada. Jogando no outro time. Inconformada com tamanha injustiça!

Porém, após tanto tempo desconectada do bem, começou a se cansar do mal. Cansou-se dos seus processos, da manipulação, do sofrimento, daqueles estados de baixa vibração constante, aquela raiva e inveja permanente. Cansou daquelas regras cansativas, daqueles rituais sombrios, daquele linguajar pomposo. Cansou de se achar a última Coca-Cola do deserto. Mas já tinha enfiado o pé na jaca, feito acordos e pactos bastante sombrios também. Sair dali seria muito difícil. Seguiu enrolando ainda durante um tempo, afinal estava bastante confortável naquele papel tão poderoso e temido.

Um dia, trabalhava meio que mecanicamente, manipulando as mentes de alguns homens governantes para que iniciassem uma guerra nas redondezas da Lituânia. Se aproximava deles vibrando em raiva e rancor e deixava que eles fizessem o resto. Era fácil demais, eles se identificavam rapidinho. Quando acabou a reunião e eles fizeram o telefonema para soltar a primeira bomba, ela vibrou um pouco de satisfação e vingança e foi-se dali sem ser vista.

Ao virar a esquina, estava na Índia onde tinha um compromisso para afastar as pessoas de um Ashram abandonado que estava sendo ocupado por algumas famílias pobres que aos poucos o estavam reconstruindo. Foi quando deparou-se com uma cena de profundo amor e gratidão daquelas famílias por Deus. Conseguiu sentir que aquele espaço lhes dava de comer, lhes dava abrigo e permitia que momentos de alegria e conexão com o divino acontecessem. Era um Ashram que tinha sido muito grande e muito vivo há um século atrás e dentro dele ainda reinava uma energia milagrosa, de muita disciplina e luta pelo amor. E, de fato, vivenciou sem querer, um milagre do amor e sentiu-se novamente na presença de Deus.

Imediatamente começou a chorar. Não chorava há séculos, nem sabia que ainda lhe era possível. E naquele momento arrependeu-se de tudo e permitiu-se sentir uma enorme saudade de Deus. Uma enorme saudade daquela sensação de simplicidade e segurança de estar fazendo o bem. Sentiu muita falta das plantas, da natureza e das cachoeiras. Lembrou-se da sensação tão antiga de ser abraçada pelo mar e caiu em desespero. Seu reino de terror havia chegado ao fim.

Deus lhe acolheu novamente, sem pestanejar. O arrependimento era verdadeiro e o desejo de voltar-se novamente para a luz, intenso.

O processo de saída das trevas não foi barato.

Entrou novamente para os ciclos de reencarnação. Com muito o que evoluir, passou milhares de anos nascendo, morrendo e crescendo espiritualmente. Escondida e protegida dos seus seguidores sombrios que jamais deixaram de procurá-la, revoltados com seu abandono e com a falta de seus poderes. Até que chegou a um ponto de força e de aprendizado em que optou por se reconectar com a malha energética da terra, quis voltar a ter uma missão mágica e ajudar a humanidade novamente. E para isso foi preciso revelar-se para também aqueles que lhe buscavam e enfrentar seus ataques.

Ataques estes que constantemente vêm pelos sonhos. Ela pode sentir-lhes a presença antes de dormir ou quando dorme em determinadas posições que parecem facilitar-lhes a aproximação. Ela não sente medo, a não ser no próprio sonho. Às vezes fica de saco cheio, sente raiva, manda o ar tomar no cu. Mas acorda e se dá o enorme prazer de se conectar com Deus! Se conectar com seu mestre xamã siberiano. Se conectar com o Prem Baba. Se conectar com mantras, Arcanjos, mestre Sant German e Jesus! Que alegria é estar no seu time de sempre. Que alegria é estar de volta na luz. Que alegria é ser boa. Que alegria é ser alegre. Que alegria é amar.

E ela sabe que ter que lidar com forças um pouco mais sombrias é parte do seu aprendizado. Ela sonha em trabalhar com defesa energética, tornar-se uma guerreira de luz! Se sente grata até por isso. Não é fácil mas é um desafio que esconde um enorme tesouro por trás. Um dia ainda vai poder ajudar outros que fizeram o mesmo movimento. Um dia ainda vai, quem sabe, poder retomar um trabalho mágico em alguma comunidade.

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