Joyce

Joyce é uma garota de Ipanema que está se tornando xamã. Ela cresceu no triângulo Ipanema-Copacabana-Leblon. Nunca foi ao Méier, Madureira ou Santa Cruz. Subiu o morro algumas vezes quando era adolescente pra comprar maconha e já fez umas nights nas baladas de patricinha do Vidigal.

Joyce já fez muitas coisas na vida. Já trabalhou em bar, em loja, em produtora, em teatro, em ONG, deu aula pra crianças e hotel 5 estrelas. Já foi patricinha, capitalista, seguidora de Cazuza, namorada, biscate, socialista, anarquista, software livre, mídialivrista, facilitadora de assembleia, leitora de aura, umbandeira, espiritualizada, depressiva, bipolar, esquizofrênica, tecnoxamã, seguidora de xamãs siberianos, popular, solitária, livre e presa. E no final é tudo isso e nada disso ao mesmo tempo.

Joyce já viajou o mundo. Mochilou a Europa com sua melhor amiga aos 18 anos. Foi pra África do Sul aos 24. Sempre que vai a NYC volta com um cartão de crédito estourado e entrega a conta pra sua mãe. Hoje em dia as suas viagens favoritas são retiros espirituais. Seu sonho é ir pra Índia e pra Tokyo ao mesmo tempo.

Esse sonho não é a toa. Ela está totalmente dividida entre a ideia de entregar-se para uma vida focada no espiritual e uma vida na matéria samsara. Não sabe se medita ou vê Netflix. Se toma um frontal pra dormir ou acorda 06:00 pra ir pra Yoga. Se fica em casa lendo “Mulheres que Correm com os Lobos” ou sai com alguém do Tinder. Não sabe se canta e dança ou compra um livro novo na Amazon. Ela ama esses dois lados. Muito. Ama a vida espiritual, as práticas, as ideias, as sensações, a energia, a troca e a sensibilidade e ao mesmo tempo ama a morgação, a zueira que não acaba nunca, a cervejinha gelada com as amigas, sexo, drogas e rock’n’roll.

Ela é muito irada e ao mesmo tempo um saco. Chegou perto, está sendo analisado. Ela gosta de falar sobre terapia, sentimentos, amor, vazio, sombra e sexo. Não é pra todo mundo não. Sua própria irmã acha que ela é louca e nem chega perto dela. Já suas amigas a elegeram a mulher mais interessante que já conheceram.

Ela tem 7 melhores amigas, todas finas e ricas. A primeira delas mora em Houston e dirige um BMW, a segunda na Costa Rica onde está casada com um argentino, a terceira em Londres trabalhando em uma seguradora e namorando um Português, a quarta em São Paulo casada trabalhando em uma agência de Publicidade e a última é economista e mora perto do Canastra (bar) na General Osório. E Joyce… é xamã.

Depois de tudo isso, de ser tantas coisas e ser nada ao mesmo tempo, Joyce está se tornando xamã. Ela não sabe muito bem o que isso significa mas sabe que é isso que está acontecendo com ela. Sabe que nasceu assim e que isso estava sendo preparado o tempo todo. Que cada segundo de sua vida confusa e não-linear lhe trouxe até aqui. Ela não faz ideia o que fazer com isso. Está muito preocupada, tem medo de se machucar. Mas ao mesmo tempo, encontrou uma paz que nunca antes tinha experimentado na vida. Saber que tudo agora faz sentido. Que nada foi em vão. Que todos os muito erros, de uma maneira foram acertos. E de que agora está tudo bem.

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