Maria

Ela vive esse dilema há anos: sair ou não sair de casa. Maria vive com a mãe e a avó em um apartamento de 400m2 na beira da praia de Ipanema. Seu quarto tem 30m2 e é seu templo. Sua vida acontece dentro do seu quarto. Ela canta, dança, planta, lê, descansa, medita, come, transa… tudo no seu quartinho lindo. Nas paredes do quarto estão os quadros que pinta dentro dele, mantras que devem ser repetidos ao seu inconsciente e um enorme apanhador de sonhos mágico feito por uma tribo xamânica peruana na noite de ano novo. Seus livros coloridos e interessantes enchem as prateleiras. A parede laranja estimula seu segundo chakra e sua feminilidade.

Maria está em um processo interno muito peculiar, vem experimentando uma abertura emocional, física e espiritual intensa. Para lidar com tudo isso que está acontecendo ela precisa desse espaço de tranquilidade. E não é só o seu quarto mas o fato de que ela não precisa se preocupar com nada além do seu quarto na vida. Não lava, não passa, não cozinha, não arruma… Seu espaço é 100% cuidado por outras pessoas para que ela só entre e faça o que seu coração deseja. Para que ela possa focar em outras reflexões, nem melhores e nem piores mas diferentes com certeza. Ela tem todo tempo e tranquilidade do mundo para enfrentar seus demônios internos, para realizar rituais de cura, para passar horas a fio apenas refletindo sobre o jogo da vida e as leis universais.

Se não existissem os outros que com ela vivem, seria tudo uma vida de contos de fada. Mas não é. Maria paga um preço muito muito alto por essa “tranquilidade espacial”. Ela é a bengala da vida da sua mãe e avó que sentem-se no direito de diagnosticá-la semanalmente. Quando a bengala está servindo direitinho, sem muitas reclamações e revoltas, fazendo seu papelzinho de filha doce e calma, ela está bem. Mas frequentemente se revolta e sente raiva desse papel, raiva dessa função, raiva dessa triste família, aí “você não está bem”. Repetiram tanto essa frase a vida inteira que Maria já internalizou e nunca de fato está bem. Está sempre sofrendo, querendo se curar, lutando pra melhorar, se sentindo despreparada e com medo.

Elas não admitem que Maria se envolva com “espiritualidade”, erros não são permitidos jamais. Se Maria cometeu um erro aos 15 anos de idade, hoje com 30 ainda tem que ouvir sobre ele. E ela cometeu alguns erros na sua busca espiritual que foram fatais pra sua família que não compreende que sua vida não tem o menor sentido se não nessa busca e que aprendemos com os erros a trilhar outros caminhos. Podemos perder nosso progresso mas a direção ainda é a mesma. Para a mãe e a avó, a vida resume-se a trabalho e marido. Se essas áreas estão cobertas, está tudo certo na vida da pessoa, qualquer necessidade a mais é loucura. Por causa disso, Maria vê-se obrigada a entrar em contato com a energia da mentira frequentemente. Uma energia que ela mesma abomina.

Ela tem que ouvir que “não vai conseguir” qualquer coisa que tente fazer. Porque elas não conseguiram e nunca sequer sentiram a energia do “conseguir” em nada que fizeram. A única crença que elas tem é de que o mundo é mal, perigoso, tudo é muito difícil e injusto. Ela convive com a negatividade o tempo todo e é abusada a manter-se nessa negatividade, perpetuar essa tristeza e esse fracasso. São estas seus ancestrais recentes, aqueles que devem apoiar a sua realização estão torcendo pelo seu fracasso.

Neste clima então ela se vê com a difícil decisão de sair de casa e ir morar em um quarto de menos de 10m2. Cabe uma cama e um pequeno armário além do mínimo espaço para ficar em pé ao lado da cama. Mas ela estaria livre dos ataques astrais e físicos dos seus familiares. Mas… onde dançar? Pintar? Plantar? Amar? Pular? Meditar? Como as outras pessoas fazem isso tudo?

Ela está inclinada para o lado da mudança. Ela sonha em morar sozinha desde que tem 15 anos mas demorou demais para perceber que para realizar este sonho ela teria que fazê-lo sozinha. Que ninguém nunca vai ajudá-la a se libertar desse papel de bengala que lhe colocaram. E muitas pessoas estão lhe apoiando e ensinando a fazer tudo o que faz em espaços públicos. A viver mais a vida fora do quarto. Ir pra rua, ir pra fora.

Mas… não é pedir-se demais? Além de tudo que ela já está passando espiritualmente, ainda vai colocar outro elemento de mudança na sua vida? Não é demais? Não estará ela sendo violenta consigo mesma novamente? Se agredindo e obrigando seu lado criança a crescer a força? Ela sempre pensou que o dia que saísse de casa seria o mesmo dia que poderia ficar pra sempre. Ela resolveria todas as questões que tinha que resolver sem sair de casa. Faria sua paz com a família e assumiria as responsabilidades de cuidar de si sem sair. Mas não será isso pedir-se demais? Resolver tudo mergulhada na situação é clamar por uma intensidade desnecessária. Às vezes se afastar é a melhor forma de curar e de abrir a visão em cima de uma situação.

São muitas dúvidas. Ela tem até sexta para decidir.

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