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Tecnoxamanismo não é isso!

Oito meses após o I Festival Internacional de Tecnoxamanismo, me lembro dessa época com certa nostalgia da minha ingenuidade. Foram 6 meses de programas semanais debatendo e desenvolvendo o conceito que chegou na minha vida quase morto. No primeiro programa, a ideia era mudar o nome totalmente para “tecnoficção” ou algo do gênero. Mas essa palavra mágica “T-E-C-N-O-X-A-M-A-N-I-S-M-O” que tem a capacidade de levantar sobrancelhas e borbulhar as caldeiras de Dionísio não poderia ser desconsiderada assim, sem uma passagem pelo incentivo energético da Penny. O momento do mundo é tecnoxamanismo! Essa palavra resume a disputa evolucionária da humanidade, abre as portas da Nova Era. Não descartemos tão rápido.

Nos amamos por 6 meses. Fazíamos sexo mental toda quinta-feira às três da tarde na Rádio Interferência, nossos olhos vidrados uma na outra, jogávamos ideias de lá pra cá, rebatendo, contestando, nos complementando em uma dança criativa que ficava mais tensa e afiada conforme nossos ouvintes aumentavam, a rede se movimentava e o conceito começava a entusiasmar e horrorizar por aí. Tínhamos plateia regular com fome de interação na rádio, convidados especiais se juntavam ao caldeirão referencial de vez em quando. A maneira que criávamos no meio daquele falatório ininterrupto era absolutamente livre, não linear, egoísta e revolucionária por acontecer dentro das paredes acadêmicas da UFRJ onde os formalismos são exaltados e nada é válido sem nota no rodapé. Mudávamos vidas semanalmente.

Conforme o conceito tomava forma e criava limites em sua aura, fomos nos definindo melhor também e começando a perceber as diferenças de expectativas em relação a ele mas seguíamos na energia da complementação, diferenças que promovem o crescimento pelo debate. Não havia necessidade de concordar em nada, era só criação, canalização de ideias aleatórias em um misto de referências de ponta e um pouco de porno-terrorismo para temperar.

Durante o festival porém minhas expectativas alucinadas se fizeram mais claras e, pra variar, me decepcionei. Eu acreditava que debatíamos o futuro. Mas não era bem isso. Até agora não sei o que era na verdade. Pra quê tudo aquilo? Debates, rádio livre, hacklab, hardware livre, atividades com os Pataxós, ritual, geodésica, ayauaska, videomaking, luzes brilhantes, terreiro eletrônico, cozinha vegana, ônibus hacker, performances… Dentre os presentes: DJs, vídeo makers, hackers, artistas, malabaristas, cozinheiros, ativistas, quilombolas, indígenas, pensadores, acadêmicos, místicos, feministas, permacultores, atores, ambientalistas, performáticos, palhaços e travestis. Se o novo não sai de um festival tal que se propõe a debater a relação entre magia e tecnologia à partir de uma perspectiva de dominação tecnológica do mundo e de mentes em regime de imersão com todos os estímulos listados acima, então não sei de onde sai.

Acabou o festival e não saiu. Ai como eu estou cansada dessa energia de frustração na minha vida! Há 4 anos que não fiz nada da vida a não ser buscar de onde vai sair esse movimento verdadeiro de mudança e criação do novo. E é sempre a mesma coisa. Tudo começa lindo, cheio de amor e parcerias. Aos poucos os egos crescem, as pessoas revelam seu lado de desinteresse pelo mundo e priorizam seu prazer e finanças acima de tudo. Durante o festival a galera ia pra praia, virava noite tomando quetamina e fazendo orgias. Taí um desafio: zumbis que querem repensar tecnologia e salvar os indígenas. Poucas pessoas compartilharam conhecimento abertamente. O misticismo foi decoração. Todo mundo atrasado pra tudo. Descaso com o que fazíamos ali. Era tudo diversão intelectual punk? Estava eu no meio de gênios alternativos entediados?

Os meses que se seguiram? Ela sumiu. Foi ficar famosa. Colher sozinha todos os frutos plantados coletivamente. Deu nosso programa por encerrado. “É uma obra.” E foi viajar o mundo sentando em mesas e brilhando em aldeias indígenas.

Até quando irão me decepcionar os líderes? Eu não suporto essa coletividade sem liderança. Essa horizontalidade irresponsável e demorada. Esse consenso bate-boca que não consegue implementar. Essa falta de humildade de ouvir o que tem mais experiência. Esse ego anarquista do ninguém manda em mim. Eu quero organização, confiança e admiração. Ordem, objetivo e meta. Doação voluntária de poder e liberdade de tomá-lo de volta a qualquer momento. Escolha. Transparência. Intimidade. Raça. “Um dia quero ser que nem ele”.

Mas é cada um pior que o outro. Puta merda. Não é possível ser liderado por quem não se admira. Esta muito difícil para uma pessoa sensível admirar alguém nesse mundo à partir do momento que a percepção do outro vem da necessidade e motivação por trás. Mas ela eu admirava demais. Um encantamento carente e barato disposto a abrir mão da perfeição em troca de tamanha gratidão pelo mundo a mim aberto. Pela oportunidade de entrar em contato com aquela energia, aquele fogo, aquela mente, aquela arte. Finalmente aprendi que não se pode abrir mão. Na busca pelo movimento verdadeiro, somente um líder absolutamente verdadeiro pode ser seguido. Se não é energia jogava no lixo. Nada pior do que o brilho da vaidade no olho daquele que te guia.

[NOTE TO SELF] Lembre-se sempre: um líder verdadeiro não se assusta quando você cresce, ele se fortalece porque sabe que você é um reflexo de sua liderança. Um líder verdadeiro quer é que você cresça tanto que tome seu lugar e sua missão evolua. Ele te incentiva, SEMPRE. Um líder falso não te deixa crescer, quer te manter onde esta porque tem medo de perder seu pódio de número um. Tem medo de perder a admiração do outro. Tem medo de perder o controle. Mas quem tem medo de perder o controle não está no controle. Quem deseja manter as coisas como estão para se garantir é o [MST] que vai manter você em um movimento medíocre ganhando um salário fixo para fazer um role político qualquer que vai mudar uma linha em um documento em 10 anos (ou uns 10 mil reais em um orçamento blá). Vai te fazer umas críticas pequenas, te dizer que você não está pronto, que precisa de mais um diploma, mais uma especialização, mais uma participação em uma peça audiovisual. Um falso líder vai se importar com coisas mínimas como logos, fanpages, administração de redes sociais, coordenações e nomes para mesas. Qualquer micro ilusão que tire o olhar da macro situação histórico-planetária que vivemos. Para te manter sob seu controle, um falso líder te oferece um pouquinho mais de poder do que os outros só pra você saber que você é o preferido. Um falso líder explora seu trabalho em troca de promessas possibilidades.

E eis que o conceito se tornou aquilo que era diferença antes. Hoje em dia, Tecnoxamanismo é uma ideia extremamente materialista, voltada para a reprodução criativa de rituais e misticismo através de luzes pisca-pisca e performances trans com trajes chocantes (capas, silicone, fitas, palha, chips e durepox). Vem inovando a estética hacklabista e, talvez, incentivando a religião da tecnologia, adoração do silício e extropismo. Os rituais são reproduções bollywoodanas de cenas pagãs trocando as ervas pelas máquinas. O contato com os espíritos é simbólico através do noise, ruídos baixados no PirateBay e tocados no Itunes. Apropia-se de qualquer termo fantasioso e ressignifica-o com a linguagem da cibercultura criando novos personagens e arquétipos vazios de espírito mas suficientemente recheado para publicar-se mais um artigo ou sentar-se em mais uma mesa. Quem sabe dar uma passada na Dinamarca.

A parte do xamanismo conectou-se totalmente com a causa indígena, conectando a cultura hacklab software livre com a necessidade de educação tecnológica nas aldeias. Além de fazer um ativismo pelos conhecimentos ancestrais indígenas enquanto alta tecnologia ambiental (o que eu acho bem legal). Mas onde estão os verdadeiros xamãs no Brasil? Os poucos legítimos que ainda existem estão reservados no interior da floresta, não estão nem sonhando com tecnoxamanismo e, pessoalmente, acho bom que fiquem bem longe de todas essas máquinas mesmo. Um ou outro xamã evangélico tira umas fotos e endossa o #TCNXMNSM mas pra onde foi todo aquele debate místico pesado que fazíamos? Pra mim, quando falávamos de xamanismo, falávamos de magia total. O xamanismo indígena sendo um deles apenas. Falávamos de astrologia, ufologia, tarot, magia do caos, umbanda, espiritismo, leitura de aura, fogo sagrado, clarividência… O que aconteceu com a minha tão amada magia open source? Eu sempre defendi que todo ser humano é xamã ou pode se desenvolver bastante nessa vida para ser na próxima. Que era hora de abrir novas potencialidades humanas na disputa evolucionária que vivemos (e perdemos) agora: homem x máquina. Que era magia versus computador na veia. Todo meu respeito ao povo indígena que amo e admiro demais mas tecnoxamanismo é mais que isso. É xamanismo urbano, siberiano, kardecista… É o corpo humano funcionando em seu pleno potencial. É o sexto sentido a flor da pele. Conexão animal com o coqueiro da praia de Ipanema. Ecovilas. Permacultura. Meditação das Rosas. Festivais de Trance. Bitcoin. E como tudo isso se conecta com os novos tempos, com as novas máquinas? Máquinas artesanais. Máquinas locais. Máquinas que manipulam energia. DJs xamãs. Telepatia.

E agora é isso: Tecnoxamanismo, essa palavra tão poderosa, capaz de fazer com que pessoas viagem 20 horas de ônibus só para descobrir o que é, tomado por um ego acadêmico. Reduzido a imagens projetadas em tecidos brilhantes e debates/artigos acadêmicos rebuscados e inovadores que se apropriam de termos indígenas e mitológicos mas que quase ninguém vê nem lê. Sendo usado como pretexto de carona pra dar uma volta pelo mundo e escada na carreira de um única pessoa. Esquecido pela rede que, decepcionada, deixou de se comunicar.

Muito feio. Me senti usada. E jogada fora. Mas não é a primeira pessoa a ignorar o valor da minha energia investida no seu talento. Jurei que seria a última.

Mas sou muito grata. Se não fosse pelo tecno, o xamanismo nunca teria entrado na minha vida. Sigo vivendo a minha diferença de conceito. Estudando. Aqueles meses de debate e criação finalizados com aquele escândalo de festival serviram para definir grande parte do que eu quero fazer na minha vida. Me abriu os olhos para o estado tecnológico futurista absolutamente apocalíptico que se aproxima. Aprendi demais. Não só sobre a tecnomagia mas também sobre a promiscuidade travestida de feminismo e o feminismo que faz sentido pra mim. Aprendi muito sobre loucura, sobre autenticidade e vaidade. Mas, acima de tudo, descobri que OS ROBÔS ESTÃO CHEGANDO e não temos tempo a esperar. Em 10 anos eles estarão entre nós. E nós precisamos ter bons motivos para continuar vivos. Precisamos fazer coisas que eles jamais saberão fazer. Precisamos relembrar a magia. Rápido.

Uma coisa é certa: eu amo essa palavra. E minha história com ela está apenas começando.

The Jungle House Project

Jungle House Logo (preto)-01

1. Introduction

The main political activism and movements on the streets today are focused mainly on resistance, not growth. Their efforts are towards preventing the advancement of corporate interests over the common good, human and labor rights, nature devastation, concentration of knowledge in few dominating minds and lives of many, etc. The strategies of many collectives (institutional or grassroots) are composed of a menu of protests, manifestos, declarations, congresses, meetings, debates, critical approaching, policy training and endless networking. All these are well incorporated inside the actual system and are not effective strategies for a true paradigm shift. It’s as if, in the lack of better ideas or methodologies, these tools become self-fulfilling, and being discontent becomes an accepted aspect that justifies a reality that refuses to evolve and change. Online petitions and social networks campaigning help conscientize and organize more people towards resisting around one cause, and sometimes some politician is convinced to step back from a previous measure taken. Unhealthy or unsustainable products are exposed, and companies are forced to improve their products. Many citizens are saturated with information concerning slavery or environmental destruction by corporations, and boycott it’s services until some change in behaviour is observed. There’s basically so much to control and fight against that it seems that most of the political activism is busy cutting the edges of injustice, watching and reacting. In this mode, there is no time to imagine new ways of living, test new alternatives and create fresh paths in this mindset.

Even as we recognize the importance of the resistance and that it has in fact slowed down the devastation of the planet and corruption of life itself, it is clearly not enough. Slowing down does not mean changing it’s trajectory, and the corporate interests’ advancement on all common goods continues unabated. And still, there are so many people still completely disconnected to any kind of participation in society. It’s as if a big slice of mankind is fast asleep and these political issues do not affect or interest them.

It is important to start thinking about new models of living, new definitions of inter-relationship, new thinking strategies, new cultural paradigms that are interesting, happy and beautiful. A vision of a future possibility that is different from our own and that is worth awakening to. It seems that connecting collective living spaces, creating communities, traditional and ancestral knowledges, mystical spiritual practices, trance tribal dancing with permaculture, deep ecological consciousness, alternative banking, open software, decentralized solutions and media ideologies mixed with generous amounts of creativity, expression and art, something new may pop up. It’s the gathering of the many alternatives that have been slowly in the making for the past few decades, together in one space, in one narrative, in one plan.

We believe in the opening of a portal of possibility, through a collective experimentation of many alternatives at the same time. Set in a natural scenario and held within the timeframe of official conferences that gather activists from the entire world, we wish to be able to present another option besides official or parallel social movements, our current traditional (and disfunctional) options. We believe in creating a safe space and attracting the right people that might be able to rethink the future and make unseen connections between unexpected ideas.

  1. Jungle House History

http://gr0wy0ur0wn.wordpress.com/

The Jungle House was born in 2011, during COP17 (UNFCCC) in Durban, South Africa. It was a spontaneous gathering of activists involved in either the official conference or the parallel activities such as #occupy and the Peoples Spaces (Civil Society Zones) that were without sleeping facilities for financial or logistic reasons. This organically formed group found themselves staying in a collective community house that was reclaimed and repurposed into a flash hostel.

In South Africa, over 30 activists from all around the world came together, got to know each other and experience living in an international collective space, sharing ideas and merging projects. Beyond this, a networking strategy and real relationships were formed. The general feeling was that that gathering was no coincidence, those people were put together to meet and share new perspectives of the future and skills for some reason.

As the conference developed, the house became a HUB for more people than just those that were living there together. The Open Office meant people could update blogs, run online components of campaigns and research easily and for free. The space was also fitted to facilitate meetings, brainstorming sessions and networking parties. The rumor spread of this amazing free thinking place that gathered not only activists but artists interested in artivism and in new ways of connecting experiences and new ways of living in the planet. Perfect connection was made and other activists involved in the activities all around Durban came to visit and share. The result was unexpected and revolutionary. After the conference, this place was the mourning space for the failure of the negotiations over the Kyoto Protocol and other policies. Looking back, the activists had a vision that the projects and relationships built in the Jungle House were more meaningful and transforming that any other official or parallel event and that interconnecting activists from different backrounds with other knowledges such as art, dancing and spiritual meditation and practices could be the catalyst for a true awakening strategy and building of a new path for humanity.

Nobody is certain how the collective house became a project with a name. As spontaneous as the people that arrived, people started to refer to this place simply as the Jungle House because of the natural scenary in which is was built. The house had a wonderful wild garden and fighting for nature made much more sense while living in such connection with mother earth. Breathing clean air, having conversations around a fire, getting some sun during breakfast seemed to help activists enthusiasm during the rest of their official activities.

One of the major advantages was the true connection between activist focused on the official process, major groups and negotiations, with the paralell activities such as protesting, direct action and grassroots projects. It was clear that these two branches of forest defenders were not used to exchanging information and we were able to recognize a major gap between both visions and ideas for the way the planet was heading. In a very respectful manner, for days, the people were able to see their similarities and respect their differences and soon aligned to what matters most: we are all humans and humanity is at risk. How can we put out skills and ideas together, connecting not only our similarities but our differences?

With this question, the network that was formed during the three weeks in Durban decided to repeat the experience during the Rio+20 Conference (United Nations Conference on Sustainable Development) in Rio de Janeiro, six months after the Durban event. We wanted to see if the effect of collective living, experience exchanging between official and parallel activist and nature scenario would prove as efficient for rethinking our part in the planet, and how we participate in effective changing methods, independent of governments, politicians or institutions. After Durban, many fell in disbelief of the traditional methods of policy making and ended up connecting with the grassroots projects and started thinking alternative routes for change. So many were excited to keep the Jungle House alive as a learning and experimentation space of alternative possibilities of activism and world thinking. So Rio+20 would be the next experiment.

After 6 months, many of those that met in Durban made their way independently to Rio de Janeiro and in sunny Brasil, rented a house in a natural scenario, just like the previous experience. They financed the cost of rent with their own finances to allow the autonomous free thinking and experimentation to flow because autonomy was and will remain central to the ideas purity of intent. The basic components of living space, kitchen, open office and workshop/art space were included in this second installation. It was still too delicate a project to connect it with institutions or fit it in any proposal or idea that would not let Mother Nature herself organize the activities through the natural flow of events and people that came to the house. In order to allow the right people to come, those that could pay for staying at the house did, those that couldn’t also did and paid their stay using their talents at housing chores or sharing their skills. It was the first difference from the previous house, economical planning and abundance focusing. We also began thinking about alternative economical models that could be applied to our needs, solidarity economy was strongly planned for next house generations. Make it an open space possible to house anyone in equal terms and value all ideas and intentions the same.

During Rio+20, Jungle House 2.0 as it was autonamed, seemed to attract the right people, and many new activists came to learn more about the project and live together, creating and experimenting with fresh and new ideas and skills. Even though many were involved in the official conference, many were focused on the People’s Summit Youth Space and had many innovative and radical ideas. For many nights, long meetings in the house happened and people from  many countries around the world united to create a strategy that was called RioT20 (a completely non-violent network that defined direct action differently from what is commonly understood. RioT20 defined direct action towards awakening perspectives such as permaculture seed bombing and planting, trance dancing to connect with ancient tribal rituals, fire communicating, xamanic energetic practices, art producing, alternative economy, deep ecology workshops and free thinking interacting moments).

After Rio+20 it was clear that the model of this alternative space for living and learning was one of the most effective experiences for transforming people’s minds about the possibilities of the environmental movement, opening up not only eyes but hearts for new relationships with other people and with nature. The mystical feeling of the whole thing brought back ancient roots of civilization and made bodies ache for the long lost sensation that all is connected through an invisible network that is the universe. Each of the “direct action” extrapolations fulfilled their mission to make people feel instead of think. To win hearts instead of business cards, and to form a network of true friends that are activists and want truly to see change.

We are now ready to take the space to a new level. With delicate planning and funding we aim to make this alternative place a consistent learning and exchanging space for all activists, artists and others, present in the cities of the major conferences, to come and feel the other possibilities for the environmental movement and to open up hearts and minds to mystical rituals, deep ecology workshops and debates to improve the feeling of connection, not only to nature but to each other. All this will be accompanied by permanent media crew to register and spread all information about the events and new ideas. We specially want to focus on web radio shows, allowing people to speak their ideas in a informal communication methodology – talk show.

The major objective is to open minds and prepare and skill people to be the creators of the new world. Every single person that went through the Jungle House came out feeling more confident about their mission, their interests and their creativity. Many joined other programs, started alternative projects, invested in communication preparation and opened up for spirituality and connection to nature in new levels.

  1. General objective:

To open minds and prepare people to be the creators of the NU world by making the inside outside connections during environmental conferences.

3.1 Specific Objectives

  1. Collective living and community experimenting in a house set in a natural scenario that inspires and confirms our inherent connection to nature.

  1. Creative thinking and networking of ideas and different world views by housing as many different people from as many different backrounds as possible.

  1. Activities during the day that inspire new ideas and connections such as workshops, debates, permaculture, yoga, meditation, radio hosting, skills sharing, media producing and dancing.

  1. Permanent hacklab experimentation with different open software technologies, radio broadcasting, video making, social networking, writing and programing.

  1. Mystical practices to improve body consciousness and connection to the invisible and impossible, as well as regaining lost ancestral tribal practices that inspire future ways of community organizing such as dancing (electronic music), fire, rituals, space observation, astrology studies, storytelling and other mystical ancient possibilities.
  1. Methodology:

5.1 Housing

Collective living in community standards.

Day 1 – Opening Circle

Participants sit down in a circle to introduce themselves and share their expectations.

They set some rules for collective living if necessary.

People take on tasks as cleaning and cooking.

Times for meals are set.

One house meeting every 3 or 4 days to circle tasks and debate improvements in living situations. These ‘house meetings’ will operate within open and horizontally democratic consensus models.

Day 14 and 15 – Closing Circle / Assembly

Participants plan next steps, share ideas and compare results with expectations. This is a long conversations that will take 48 hours.

5.2 Activities

PERU [COP20] PROGRAM (this is a base but open activity submissions will be sent through relevant networks)

December 2014

01 – Opening Trance Ritual

02 – Day 1:

Opening House Circle

World Café of Four Elements (Fire, Water, Earth, Wind)

FIrst Radio Transmission – Presentation of free radio movement and organizing of programming schedule

Vegan cooking class to prepare dinner

03 – Day 2:

Debate: Official x Parallel Conferences

Roundtable: Permaculture

Workshop: Permaculture Flower

NU World Brainstorming

Tibetan Night Ritual

04 – Day 3:

Mayor Group Inside Outside Debate: Children and Youth

Recovery from Western Civilization

Children: indigo, crystal

Alternative Education

NU World Brainstorming

Night Ritual

05 – Day 4:

Mayor Group Inside Outside Debate: Indigenous

Deep Ecology: A New Paradigm

Practice of the Wild

NU World Brainstorming

Night Ritual

06 – Day 5:

Mayor Group Inside Outside Debate: Rural

Cultured or Crabbed

Ritual – The Pattern that Connects

Modern Enviormental Consciousness

NU World Brainstorming

Night Ritual

07 – Day 6:

Mayor Group Inside Outside Debate: Women

Ecofeminism

Ecocentrism and the Anthropocentric Detour

Ecosophy

NU World Brainstorming

Night Ritual

08 – Day 7:

Mayor Group Inside Outside Debate: Business and Industry

Equality, Sameness and Rights

Animal Rights

Leaving Earth: Space colonies

NU World Brainstorming

Night Ritual

09 – Day 8:

Mayor Group Inside Outside Debate: Local Authorities

Transhumanism

Artificial Inteligence

Robots

NU World Brainstorming

Night Ritual

10 – Day 9:

Mayor Group Inside Outside Debate: NGOs

Bioengineering

Tecnoxamanism

The human body potential

NU World Brainstorming

Night Ritual

11 – Day 10:

Mayor Group Inside Outside Debate: Scientific and Technological Community

The collective uncountious

Sincornicity, sensibility and telepathy

Trance Movement

NU World Brainstorming

Night Ritual

12 – Day 11:

Mayor Group Inside Outside Debate: Workers and Trade Unions

Modern Tribes

Ancient Living today

Open software movement

NU World Brainstorming

Night Ritual

13 – Day 12:

Internet privacy

Copyright, copyleft, creative commons

Solidarity Economy

Bitcoin

NU World Brainstorming

Opening of Trance Festival

14 – Day 13:

All day Trance festival with xamanic rituals

15 – Day 14:

Opening of closing debates and planning of the future

16 – Last Day

Closing of debates and planning of the future

Everyday:

Ayurveda, vegan and raw meals

Xamanic Morning Practices for Body Energy and Connection

Yoga, Qi gong

Meditation

Astrology and Tarot readings

Permanent fireplace with circular firekeeper

Radiostation open mic and scheduled programming

5.3 HACKLAB

Open Office

One of the key components of each JungleHouse space has been the ‘Open Office’. By creating and hosting an open office with free internet connection and desks/stationery/calenders, the space facilitated synergetic harmony between media projects as well as rapid development of platforms/ media campaigns. The Open Office allowed many people to update blogs, translate material, post pictures and reports to engage with the world. In COP17, we set up an independent media lab at a local university, which allowed you tube videos to be edited and uploaded using powerful machines and solid internet connections. In Rio+20, we noted that the Open Office allowed more material to be translated, as this became integral at some late stage of the conference. Even during the Nomad Experiments (JH2.2), having a connection to the internet and being able to share it proved to be a powerful enabler.

The Hacklab forms another important element of the JungleHouse project, as it brings people together under the search for knowledge and sharing. It will facilitate more quality media being released, more networks being activated and a quicker dissemination of information while experimenting with decentralized information technologies.

The Radio Station

The Radio Station is a powerful symbol of freedom of movement of ideas and sounds. During the major convergences that the JungleHouse projects are executed, we wish to have an autonomous news channel where we can spread ideas, share stories and broadcast our message to the world. The Station will be an internet station with the entire suite of social media tools attached to help share and spread information accurately and consistently. The external media platform (blogsite/website) will be built to facilitate exchange and encourage discussion through forums and comment blocks.

The station will also want to have a physical transmitter to broadcast around spaces associated with the conferences.

Content will be produced from the JungleHouse events and talks, including but not limited to interviews and reports from civil society, the Major Groups and global citizens at large. The channel will also be made accessible and available to people gathering inside and around the conference and it’s themes, an open platform for people to share stories and present ideologies and potential solutions. The radio format also allows us to incorporate music, which is an essential element of connectivity and consciousness evolution.

The radio station portal platform can be activated to produce content between and leading upto conferences, including post-analysis.

The ArtSpace

 

It is beyond contemplation as to how essential pure creativity is, to these processes. Each JungleHouse has had dedicated ArtSpaces, where painting, building, fashion and other creative artforms were employed towards creative actions, manifestations and the Global Day(s) of Action.

The ArtSpaces have enabled the creative community that flows and forms around JungleHouse spaces to support a wide range of civil society and direct action groups in their quest to tell their own stories. We see this module of functionality always having context and remaining vital to activating and harnessing creativity into the re-definitions we are all working towards.

5.4 Time

As a NU World-focused HUB, we believe that the relationship with time must be the first shift. Alternative timing will be manifested.

  1. Outputs

It is impossible to expect a specific outcome of the project since our intention is to let the new  happen and we cannot predict what we don’t know. What we can and want  to do is to create the perfect environment for creation and understanding  of alternative paths for a better future. Our best output scenario would be to create a roadmap plan to expanding the JungleHouse model to other countries and conferences and creating a global movement of new world thinkers and planners. It would be a great dream to get a vision of this new world order and to be able to tell this story, spread the news of the creation of a new global civilization.

The media center will produce many texts, blogs, articles, photos, videos and radio podcasts to be collated into a media package downloadable through the internet.

Texts and pictures can be organized into a publication.

  1. Applicability across regions and disciplines

Our intention is to multiply this experience to as many places as possible. We can put together a “Grow your own JungleHouse” toolkit to expand the model through the world. As this is a multidisciplinary project, it’s main objective is to connect all knowledge and ideas in a decentralized and openly accessible manner, helping to test and create permanent solutions.

  1. The Jungle House Process (PERU to Paris)

Previous experimenting houses, mixing models:

1.0 COP17, Durban, South Africa

2.0 Rio+20, Rio de Janeiro, Brasil

2.1 World Social Forum, Tunis, Tunisia (incomplete)

2.2 Nomad, Coast of South Africa

2.3 Jungle CobHouse, United Kingdom

2.4 Urban Collective Hub Stellenbos, South Africa

The Project reaches maturity and gains form and structure for planning and implementing further, opening the idea for institutional support and funding and organizing the crew:

2.5 COP20, Lima, Peru

The bigger picture focuses on COP21 (Paris) but in order to have the perfect Jungle House experience ready for that conference we have agreed to a one year preparation plan that starts in COP20, Lima. This house will be the first space with months of ahead planning, open applications for workshops, defined program and communication strategy. In order to test all possible gaps in the model and to observe the results and how they can be improved in the future. This is a laboratory for the evolved version of the project.

2.6 Preparational upcoming convergence (potentially World Social Forum Tunis 2015)

2.7 Preparational upcoming convergence

After Peru, we have planned other two smaller experiences in different continents in strategical time periods yet to manifest, hopefully with the Peru closing and next steps assembly. These are focused on learning new skills and networking more people from different backgrounds and expertises.

2.8 COP21, Paris, France

At COP21, Jungle House will serve as a safe place for presenting alternatives and making outside decisions to compare with official negotiations and future proposals. We hope to encourage many people to take the environmental crisis seriously and at the same time fall in love with nature and the connection possibilities it provides. Final closing and next step assembly hopefully leads to the decentralized spreading of Jungle Houses all around the world.

2.9 Worldwide (where people use models developed and shared, and add their own to create multiple iterations of JungleHouse’s uniquely suited to its environment)

3.0 Final Jungle House

The world is saved.

During this year between conferences the permanent communication platform and radio station launched in Peru will be active and working on connecting with activists inside and outside the conference, following negotiations, debating on Major Group decisions and networking alternatives for the Paris experience.

Ciberespiritualidade

Dedico este trabalho a todas as pessoas que acreditam que outro mundo é possível e, por isso, enfrentam a si mesmas no processo de cura interior.

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MOURÃO, Lívia Achcar. Ciberespiritualidade. Orientador: Márcio Tavares D’Amaral. Rio de Janeiro, 2014. Monografia (Graduação Em Publicidade e Propaganda) – Escola de Comunicação, Universidade Federal do Rio de Janeiro.

RESUMO

Este trabalho pretende aprofundar a crítica tecnológica trazendo um olhar para além das relações entre tecnologia com a ciência e o capital. Trataremos das tecnologias de comunicação e informação e suas relações com a espiritualidade, pretendendo ampliar o olhar sobre todas as relações tecnoreligiosas com o objetivo de trazer à tona a relação inconsciente entre espiritualidade e tecnologia que vem influenciando os caminhos evolutivos da humanidade e abrindo as portas para um cenário futurista preocupante de máquinas superinteligentes e realidade simulada.

Palavras-chaves: 1. Tecnologia. 2. Espiritualidade. 3. Evolução. 4. Magia. 5. Ciberespaço.

AGRADECIMENTOS

Agradeço a todas as pessoas que fizeram parte do processo de criação deste trabalho direta e indiretamente. A todos aqueles que me acolheram em seus projetos, coletivos e sonhos em fases diversas da minha vida e que me inspiraram a ser mais criativa e a não ter medo de refletir sobre o improvável, me mostraram formas alternativas de viver e ensinaram a acreditar em outras possibilidades de estar na realidade.

Também agradeço meus queridos professores na Escola de Comunicação pelo entusiasmo com que lidam com o campo da comunicação e, em especial, meu orientador Márcio Tavares D’Amaral por todo seu incentivo e liberdade criativa que me permitiu.

Não posso deixar de agradecer com todo meu amor o movimento software livre que segue na luta pela liberdade na internet, acreditando sempre no compartilhar das informações e na capacidade coletiva de criação. Assim como a mídia alternativa que me ensinou a importância que tem os comunicadores na defesa e divulgação da verdade em um tempo de total descrédito das grandes corporações midiáticas interessadas em manter o homem aterrorizado e entretido dentro de sua casa.

Agradeço também ao The Pirate Bay que segue enfrentando todos os obstáculos e tentativas de controle na defesa do livre compartilhar de informações, conhecimento e cultura.

E agradeço aos meus mestres espirituais que me ensinam o que é ser humano.

DOWNLOAD:

ACHCAR, Livia. Ciberespiritualidade. 2014.

AURA 1 – Piracanga

Acabei voltar da ecovila Piracanga que fica há poucos quilômetros de Ilhéus na Bahia. A primeira vez que estive neste lugar foi em dezembro de 2010. Eu mochilava a Bahia com meu namorado da época e nós dois estávamos em uma onda de explorar locais desconhecidos. Ficamos sabendo dessa ecovila como uma espécie de lenda. Sem ter certeza se chegaríamos lá, fomos até uma praia em Itacaré e seguimos andando por horas pela costa do Maraú carregando nossas mochilas e barracas. Exaustos, quase desistimos da busca, até que avistamos alguns franceses que surfavam que nos indicaram a linda ecovila bem atrás deles. Fomos recebidos pelo jovem Ragi com sua mulher e atravessamos o rio em uma balsa quebrada. Era noite de lua cheia e uma grande celebração ao redor de uma fogueira estava programada. Foi a primeira vez que entrei em contato com a magia com leveza e naturalidade. Ao redor da fogueira estavam diversos terapeutas holísticos, leitores de aura, um fotógrafo de espíritos (que nos mostrou suas fotos como se fosse a coisa mais normal do mundo), mestres de reiki e outros seguidores de diversas linhas, conversando, tomando sucos e comendo comidinhas veganas. Ficamos mais dois dias e eu recebi a minha primeira leitura de aura do português Alberto que morava lá.

Essa leitura foi muito bonita mas na época eu ainda era bem desconectada do esoterismo e me lembro de pensar que aquilo era algo comum na Europa. Não fiquei particularmente impressionada. Eu precisava mesmo passar por outros processos antes de ter a capacidade de valorizar aquela experiência revolucionária que eu tinha tido a oportunidade de experimentar tão cedo na vida. Na época pouquíssimas pessoas tinham a chance de ter suas auras lidas. Essa técnica ainda estava bastante restrita a alguns poucos terapeutas que tiveram a oportunidade de aprender do californiano que canalizou esta ferramenta de 144 anjos nos anos 60.

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A vida acontece, dá voltas e em dezembro do ano passado eu me encontrava em uma confusão mental e exaustão profunda de tanto insistir em caminhos políticos, ativistas, anarquistas e rígidos de emoções. Tirei uma semana afastada de todas as minhas atividades que serviam para tapar meus buracos e preencher meus vazios e me inscrevi em um curso de meditação que, como tudo na vida, se apresentou no momento certo. Era a Meditação das Rosas, essa meditação é pré-requisito para a leitura de aura pois é uma ferramenta muito poderosa de limpeza energética. Assim que realizei a minha primeira meditação completa, limpei muita energia que eu estava carregando e tive um ataque de choro na frente das 30 pessoas que faziam o curso.

A meditação das rosas passou a fazer parte da minha vida e nos primeiros meses fiz todos os dias, limpando muita coisa que eu carregava. Aos poucos fui me distraindo e sucumbindo à preguiça que não é nada mais que energias de resistência à sua limpeza do meu campo. Me envolvi com outras linhas espirituais, aprendi outras meditações e fui crescendo em outras áreas do interno, elevando minha energia corporal através de práticas xamânicas, parando de beber, de fumar, de alterar a percepção à partir de substâncias externas… A meditação das rosas acabou sendo uma prática semanal.

Minha melhor amiga resolveu pedir demissão da sua vida tradicional de trabalho e ilusão e se juntar a mim numa busca pelo caminho da felicidade. E foi ela que foi fazer o curso de leitura de aura em Piracanga em Maio desse ano. Ela voltou muito diferente e muito consciente. Quando nós conversávamos era como se ela estivesse na mesma busca que eu esse tempo todo. Percebi que aquele lugar tinha uma conexão muito forte com o meu caminho e que eu devia fazer o curso também.

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E a minha experiência no curso foi muito transformadora. Ao chegar em Piracanga, levando na mala uma roupa da cor e cada chakra, eu não sabia o que esperar. Na verdade, eu estava me achando um pouco clichê, esse curso está se tornando tão popular e tantos amigos já fizeram… E meu ego adora ser diferente. Ego este que seria desconstruído rapidinho durante o curso, a minha intenção era mesmo desconstruir o ego e me libertar dos medos que me impedem de ir pra frente. O lugar estava totalmente diferente. O jovem Ragi se iluminou e tornou-se Prem Ragi, a vibração de Piracanga mudou completamente depois disso, a espiritualidade tornou-se um foco muito bem organizado da comunidade que passou a compreender-se como um berço de novo mundo. Muitas pessoas se mudaram pra lá e muitos dos antigos moradores se foram. Diversos projetos de permacultura, alimentação, universidade para jovens, escola de serviços foram estruturados e a formação espiritual fica a cargo do curso de leitura de aura que tem sete módulos, sendo que o seis e sete são para formação de professores. Eu percebi que voltava para um lugar que evoluiu muito e mudou, mudou para algo maior do que me considero apta a compreender.

Foi tudo bem diferente do que eu imaginava. Eu não estava apenas em um curso de leitura de aura, eu estava em um retiro de cura energética. Os professores nos explicam que para ser um curador é preciso se curar antes e que se aquele curso iria nos ensinar uma ferramenta de cura, ele iria nos auxiliar no nosso trabalho interior intensamente para que estivéssemos mais aptos a usar a ferramenta. A cada dia que passava, todos vestindo a mesma cor e se conectando com a vibração de cada chakra, eu podia perceber a egrégora invisível que nos auxiliava no nosso processo de cura e o campo energético sustentado pelos guardiões de luz daquele lugar.

As vibrações densas não tiveram chance. Passamos por diversos processos intensos de limpeza até mesmo de obsessores em um espaço de muita segurança e muito suporte dos instrutores. Ao longo dos dias, víamos as pessoas se transformando fisicamente, mudando seus sorrisos, se abrindo, expondo suas verdades, chorando e voltando a se conectar com a energia perdida do amor. As vivências são pensadas de acordo com o grupo, cada AURA 1 é diferente do outro. As pessoas que chegam para o curso parecem ser atraídas na mesma época para um processo de cura específico, é incrível o quanto nos identificamos nas questões do outro e como podemos ver no outro o nosso espelho durante todo o processo.

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Piracanga é puro amor, é um local em que a pureza de coração não é vista como ingenuidade mas sim como beleza de espírito e qualidade moral. Para mim, especialmente, foi muito forte perceber que o processo de cura que eu recebia ali era na verdade a compreensão de que eu podia ser como eu sempre fui. Passei a vida ouvindo dos outros que eu era sensível demais, que eu era ingênua, que eu me abria demais pras pessoas, achava que todo mundo era meu amigo, me preocupava demais com o bem estar dos outros… E acabei mesmo sendo explorada, traída, abandonada por ter sido muito pura em alguns processos que vivi que exigiam mais sagacidade, mais maldade, mais proteção emocional. Após essa decepção com o mundo e com as pessoas, eu passei por um processo de auto crítica tão intenso em que eu me culpei durante muito tempo por ser como eu era, eu me achava uma idiota, não entendia porque eu não conseguia ser como as outras pessoas que tinham tanta malandragem, tanta facilidade em compreender os jogos por trás das motivações aparentes, que falavam tudo pelas entrelinhas… E fui me fechando, criando muros de proteção ao redor do meu coração. Me tornei uma fortaleza para nunca mais ser enganada, ao mesmo tempo me desconectei da minha pureza, da minha verdade. E em Piracanga eu aprendi que no novo mundo que está sendo criado ali, essas qualidades que eu sempre tive eram o que estava sendo cultivado e curado nas pessoas.

Não foi fácil perceber o quanto eu estava distante da minha essência por causa de toda a proteção que eu criei. É como se durante os últimos dois anos da minha vida eu tivesse tentando curar o que não precisava ser curado. Eu vinha tentando ser mais rígida, mais distante, mais independente emocionalmente das outras pessoas, mais fechada e reservada. E lutando muito por isso. Estava aí o meu estado de exaustão e solidão que eu mesma vinha criando pra mim acreditando que isso era crescer e me tornar apta para encarar o mundo “real”. Em Piracanga me foi apresentado um outro mundo real em construção, onde fala-se à partir da sua verdade e ser puro, amoroso e aberto é aceito e valorizado.

Dois chakras foram especialmente difíceis pra mim. O chakra verde cardíaco Anahata e da garganta azul celeste Vishuddha que regem respectivamente o amor humano e incondicional e a capacidade de expressão e materialização. Durante o dia do coração eu fiquei bem irritada por ter que lidar com meus problemas afetivos e tive muita realização de amarras e acordos energéticos antigos que ainda me separavam de possibilidades futuras. Fiquei especialmente irritada durante a vivência noturna que era uma grande partilha das questões afetivas. Me recusei a partilhar, consciente de que era uma resistência da minha parte. Em alguns momentos me senti como se ter que amar e me relacionar fosse um peso de tão difícil que preferia não ter esse chakra por vezes… Já o chakra da garganta foi uma surpresa. Eu sou uma comunicadora, tenho um programa de rádio, falo em público especialmente em situações políticas em que tenho que defender algum ponto de vista mas alguma coisa aconteceu durante esse curso que eu não senti vontade de falar uma única vez sequer. Enquanto todas as pessoas expressavam suas angústias, choravam para todos, comentavam seus problemas, eu ficava ali só olhando e tentando resolver minhas questões internamente… Mas comecei a me sentir muito incomodada com a minha rigidez em não querer me expor ou expressar nada. Aos poucos fui percebendo que tenho falado muito de tudo menos das minhas emoções e que quando estou em um espaço de expressar o que se passa internamente, travo. Recebi muito suporte das leituras de aura que fizeram em mim, muitas mensagens para que eu me abrisse, para que eu colocasse minhas ideias pra fora. Há muito tempo que me fechei, deixei de falar sobre sentimentos e ideias. Desde que desisti da política comecei a acreditar nas pessoas que dizem que não adianta nada falar sobre essas coisas, que ninguém quer falar sobre o mundo, ninguém quer ouvir sobre outras possibilidades, que esses papos cabeça são muito chatos… Também reconheci um lugar de muito receio de afastar os outros com as minhas ideias, de demonstrar as coisas que eu penso e ser considerada diferente demais, inteligente ou louca demais… Quanta coisa pra curar que eu nem sabia! Foi difícil…

Durante todo esse processo de cura, começamos a aprender as técnicas da leitura de aura. A aura é o campo energético que nos rodeia e carrega todas as informações sobre nós mesmos, o que vivemos, quem somos, todas nossas memórias e até registros de vidas passadas. Na verdade todos nós já nascemos fazendo leitura de aura. Sabe quando você olha para uma pessoa e tem uma sensação ou já sabe alguma coisa sobre aquela pessoa sem que ela tenha te falado? No curso nós aprendemos uma forma de acessar essa informação. Só que fazemos isso com a permissão do espírito das pessoas para trazer alguma clareza sobre suas vidas. Na verdade, quem guia toda a leitura é o próprio espírito da pessoa que envia as imagens e mensagens para que a pessoa possa tomar consciência do seu momento e saber como proceder para alcançar uma maior proximidade com sua essência. O que mais me encanta é a linguagem utilizada nessa comunicação divina que é extremamente metafórica, algo que um computador jamais seria capaz de decifrar. É a linguagem mais humana de todos os tempos. Nenhum outro ser ou máquina teria a capacidade de fazer as associações e interpretações necessárias para compreendê-la. É uma linguagem extremamente simbólica.

Muitas pessoas chegam no curso acreditando que não vão conseguir ver nada. Mas todo mundo vê. Passamos alguns dias nos revezando em pares e lendo uns ao outro. Ao final do curso estamos íntimos de muitas pessoas, as amizades tornam-se intensas muito rapidamente pois acabamos ficando sabendo bastante de cada pessoa, além de ser um momento de muita troca de energia.

Saí do curso renovada. Em contato com tantos sonhos que eu nem sabia que ainda tinha. Me sentindo um pouco desprotegida por ter desconstruído tantas das minhas barreiras. Voltar pro mundo real, encarar uma cidade novamente me assustou. Eu não quero mais essas barreiras nunca mais. Quero poder ser eu mesma, custe o que custar. E foi esse o último conselho que recebi da pessoa que estava dirigindo meu transporte para o aeroporto de Ilhéus: se te passarem pra trás porque você está sendo amorosa, não é pra deixar de ser amorosa. Não dar tanto peso para aqueles momentos em que ser uma pessoa boa parece não ser o certo. E fiz a escolha de entrar cada vez mais em contato com a minha essência de amor e verdade de esperança.

O ingrediente secreto é o tempo.

Vivemos no espaço-tempo. Se vamos pensar o novo, temos que ter claro que não estaremos ressignificando apenas o que acontece no espaço do real mas também a relação humana com o tempo. Sentimos uma pressa incontrolável de mudar, de criar, de produzir e nos fazer úteis nessa construção do desconhecido que pode abrir portas para um novo estar no planeta, sem perceber que o novo não será construído no tempo velho. Estamos acostumados a essa ânsia de produtividade e necessidade de resultados concretos e acabamos colocando essas expectativas em cima desse movimento que vem abrindo as portas para a nova era. Mas não é assim que funciona.

Já está claro que o maior dos pilares dessa nova construção é a conexão com a natureza. É Gaia que tem nos guiado até aqui, que tem provocado encontros e sincronias, que vem sussurrando em nossos sonhos os próximos passos. Ninguém está criando nada, somos todos fantoches da nossa própria salvação. Sendo assim, tudo que precisa ser feito será feito no tempo da natureza que é muito diferente do tempo dos homens. É preciso plantar sementes, nutrir o broto, amar o pequeno ramo tímido que flerta com o crescimento, incentivar as primeiras folhas, aguardar sem muitas novidades durante um longo tempo, encantar-se com os primeiros brotinhos de flores e finalmente deliciar-se com as flores e os frutos. E durante todo esse período estar aberto para eventuais mudanças de rumo, sinais, coincidências… O processo é tão importante quanto o resultado.

E o resultado é proporcional ao processo. Se estamos pensando um novo mundo, ou melhor, fazendo as conexões entre as sementes de novo mundo que já estão espalhadas e, muitas delas, crescidas em belas plantinhas, temos que ter a consciência de que deve ser perfeito. Só temos uma chance porque não existe outro mundo a se formar se não aquele que nascer agora, por isso não se pode querer acelerar as coisas, não se pode abrir mão da qualidade de cada movimento nesse sentido, não se pode ser leviano com a missão. Cada fase do trabalho é tão importante quanto a outra.

De que adianta plantar 500 sementes ao redor do mundo se não se tem tempo de voltar para nutrir seus brotos? Eles morrem. Então de nada adiantava ter plantado a semente em primeiro lugar. É desvalorizar a própria energia.

E brotos firmes evoluem em plantinhas que passam a distribuir sementinhas também. É muito melhor ter 40 brotos distribuindo sementes do que um único ser plantando sementes por todos os lados sem parar para nutrir. O novo mundo nasce desse movimento de empoderamento coletivo. E da confiança no coletivo. Mas confiar no coletivo não é incentivá-lo e abandoná-lo a sua sorte. É preciso estar constantemente acompanhando o crescimento de maneira livre e desprendida mas não irresponsável.

“Tu te fazes eternamente responsável por aquilo que cativas.” Cative apenas a quantidade daquilo que pode assumir.

Também parece que estamos acostumados a medir resultados pela quantidade de pessoas que afetamos. A quantidade de sorrisos, de descobertas, de conexões… Outra falha. Outra tradição do velho ainda nas nossas mentes. Em um momento de construção e investigação, qualidade e constância se fazem muito mais importantes do que quantidade. Quando focamos na quantidade, na verdade estamos centralizando muito conhecimento. Muitas pessoas dependendo de algumas poucas. Quando focamos na qualidade estamos formando multiplicadores que futuramente e conjuntamente poderão formar outros e outros e assim a quantidade se expandirá muito além do que qualquer multidão inicial poderia chegar. Além disso, para experimentar é preciso de constância e para isso é preciso mais que inspirar é preciso formar. Não adianta investir energia em 500 pessoas se depois apenas 4 seguem com os ensinamentos. Era melhor que 12 tivessem sido formadas de maneira profunda e permanente.

E a qualidade do novo mundo se refletirá na qualidade desse processo. Na calma e na atenção aos detalhes que fazem parte desse novo caminhar. Os pilares dessa construção não podem ser afobados, incoerentes ou levianos. É muita responsabilidade. É preciso lutar contra tudo de velho que ainda mora em nossas expectativas de resultados rápidos e medidas de sucesso pela quantidade. É preciso investir energia focada aonde ela pode dar futuros frutos. Sem desperdiçar com pressa ou ideias grandiosas solitárias que não são compartilhadas.

A construção do novo mundo é tão delicada quanto uma pequena sementinha plantada. Não se pode nunca perder de vista o objetivo maior assim como cada detalhe do processo que leva até ele. É preciso estar constantemente atento aos padrões antigos que ainda se escondem no nosso dia-a-dia e compreender que no novo, tudo é novo. Nada nunca foi feito. É a mais pura fé.

Tecnoxamanismo: o novo possível

Em seu complexo texto “A origem da obra de arte”, Martin Heidegger aborda a questão de que a verdade da humanidade atual é fundamentada no conhecimento técnico-científico. A arte deixou de assumir o papel instaurador de sentido que tinha na idade média. À partir da modernidade, nas democracias que definem-se liberais, o que vem instaurando o sentido da humanidade é o eterno processo de transformação do progresso técnico-científico.

Para questionar esse sentido, Heidegger nos trás à memória a ideia de que o ser humano é eminentemente possibilidade. Estamos no aberto dos possíveis. O comportamento do homem não é programado biologicamente como o dos animais que são reféns de pulsões e instintos que os enquadram em determinados modos de vida específicos com funções e ações pré-definidas pelo seu corpo biológico. Uma cobra jamais poderá assumir o papel de um tigre na natureza, por exemplo. Já o homem não é refém de suas predisposições biológicas. Nosso estado na natureza é definido muito mais pelo que nos é legado quando nascemos. Ou seja, todos as informações que recebemos de nossos antepassados através das nossas tradições de acordo com o ambiente familiar, econômico, geográfico e cultural em que nascemos.

Todas as culturas antropológicas são modos diferentes de entender a realidade. Ao redor do planeta, podemos encontrar diversos mundos diferentes, baseados nessas diversas compreensões do que é real. Só que o autor chama atenção para o fato de que cada um desses mundos possíveis, ao se constituir enquanto uma possibilidade, descarta todas as outras possibilidades. Sendo assim, qualquer realidade em que acreditamos é restritiva de algum modo.

Com a crescente globalização e conectividade do mundo, cada vez fica mais difícil esquivar-se de uma única possibilidade, a da transformação técnico-científica enquanto sentido da vida humana, que vem sendo apresentado como verdade. A massificação e concentração do discurso midiático ao redor de um único modelo econômico embasado por um discurso de entretenimento cultural voltado para o consumo e redução do homem a espectador de poucos também vem restringindo a abertura de outros possíveis. Vivemos principalmente uma crise de ideias e narrativas.

O filósofo chama atenção para o perigo dessa verdade apresentada como única possível: a transformação técnico-científica tende a se infinitizar, ou seja, não há um ponto de chegada dessa verdade, um objetivo maior. É uma tendência eterna que vem dominando mentes e destruindo o planeta terra e seus recursos finitos sem jamais chegar a um fim concreto. É um modo de estar na realidade que tem sempre o progresso como seu próprio fim. Nos perguntamos então: quando acaba o processo? Essa circularidade do transformar é o maior problema. O estar no processo tecnológico é estar preso a esta possibilidade do transformar por transformar.

            Dentro da realidade do progresso, tende-se a endeusar a novidade. O que é mais moderno que representa o maior grau de progresso científico é o que tem mais valor. Seguimos alimentando o fluxo da transformação ao estarmos em uma eterna busca do novo enquanto cálice da felicidade e sentido do estar vivo. Só que dentro desse paradigma há uma diferença importante entre a novidade e o novo. À partir do momento em que as novidades acontecem e estamos sempre as consumindo, isso não é novo. O costume é o buscar novos objetos, seguir as novas tendências, nos adaptar às novas plataformas de comunicação… Nos vemos temporalmente imersos nas novidades, a tradição já tornou-se o consumo delas. Não há nada de novo nisso.

O novo seria parar de fazer essas coisas e fazer outras coisas. Parar de transformar as coisas. Viver de outra maneira, fazer outra coisa. Essas novidades não tem nada de novo, já tornaram-se tradição. O novo seria radicalmente diferente desse eterno consumo de novidades técnicas. O novo seria andar de ponta cabeça todo dia, criar novas formas de amar, valorizar o antigo, guiar-se pela luz da lua… Criar novas formas de se estar no mundo que sejam diferentes daquelas incentivadas pela forma atual do progresso técnico científico.

Como, para Heidegger, a arte deixou de ser o que instaura a verdade para essa realidade em vivemos, então talvez a arte possa ser o espaço que abra o pensar para a nova possibilidade que não seja o acumular se esta se propor a não valorizar tanto as novidades. E isso vem sendo um desafio cada vez maior enquanto o estar da arte atualmente tem tudo a ver com a técnica e com a capacidade técnica do artista. A arte hoje está sempre se renovando junto com as novas possibilidades de produção e quanto mais tecnológica ou mais complexo o processo de produção científico da obra, mais valor ela tem perante o mercado e os críticos. Chegamos a tal ponto em que ideias e conceitos são secundários em relação à maestria tecnológica, efeitos especiais, iluminação, softwares de edição de som e vídeo, impressoras 3D, drones e por aí vai infinitamente. Vamos à exposições de arte mais para ver que tecnologias tem sido apropriadas pelos artistas e quais usos para elas além do convencional estão sendo propostos. Mas as ideias, críticas, novas linguagens e olhares para o mundo estão cada vez mais em falta.

É dentro deste contexto que nasce o Tecnoxamanismo, um novo conceito e possível movimento pensado especialmente por artistas, tecnólogos e místicos articulados perante a catástrofe emanente prevista para o planeta nas próximas décadas. Uma quebra radical com o olhar técnico científico que proporciona um novo olhar para as novas e velhas tecnologias que vem dominando as mentes humanas cada vez mais distantes da sua potência em troca do permanente estado de simulação proporcionado pelo ciberespaço.

Para começar é um movimento ambientalista de valorização dos povos indígenas e de suas tradições e tecnologias milenares em conexão com a grande mãe natureza. Parte-se do xamanismo, a prática espiritual dos pajés baseada na exploração da mente em profundidade, expansão da percepção em êxtase induzida pela ingestão de substâncias alteradoras da consciência (Enteógenos) que possibilita o trânsito mental destes homens a outras dimensões (exploradas também pela física quântica) e outras formas de vidas como plantas e animais – o xamã pode ver através dos olhos de uma águia ou correr dentro de uma onça. São eles que tem visões do futuro, profetizam acontecimentos que os vem em imagens ou sonhos. Podem comunicar-se telepaticamente, manuseiam energias de seus e outros corpos, transmutam padrões energéticos através de rituais, incorporam, canalizam e comunicam-se com seus antepassados espiritualmente. São exploradores de um potencial inerente do “hardware” que é o corpo humano inseridos em uma possibilidade de estar na realidade radicalmente diferente do transformar técnico científico em que a maioria da humanidade se vê inserida por falta de opção melhor.

O tecnoxamanismo começa por entender o xamanismo enquanto um potencial inerente de todo ser humano que se propõe a inserir-se em uma nova possibilidade de estar no planeta. Ao invés de máquinas, a mente. Não são somente os xamãs que tem a capacidade de acessar todos os conhecimentos da terra com o fechar de olhos, inúmeras linhas místicas indianas e mundo a fora já falam sobre a possibilidade de acessar uma rede energética espiritual que poderia substituir o Google com o árduo treinar de um estado de alerta mental diferente daquele que estamos acostumados.

Entendendo que o xamanismo é uma linguagem mística falada dentre os povos indígenas semelhante a outras linguagens (correntes) de misticismo, ocultismo, tribalismo e conexão com a natureza faladas ao redor do mundo, acredita-se possível valorizar estes conhecimentos há muito tempo desqualificados pelo paradigma técnico científico devida a sistemática falência do método experimental lógico racional em compreendê-los para superá-lo. Ou seja, explorando esse conhecimento ancestral irracional fundamentado na capacidade intuitiva e expansiva da mente humana poderemos através do nosso próprio corpo superar a relação com a máquina e o progresso que está a nos dominar e possivelmente culminar na extinção da raça humana.

À partir daí olhamos para as tecnologias, métodos de organização social e práticas espirituais ancestrais que datam do período neolítico anteriores até mesmo a linguagem escrita enquanto tecnologia de ponta para pensar uma nova possibilidade de estar na realidade. Analisando a relação milenar humana de parceria entre os gêneros, adoração a uma deusa mulher criadora da vida, organização política voltada aos interesses da comunidade e foco na beleza ao invés da sociedade patriarcal, hierárquica, fundamentada por uma teologia masculina adoradora do Pai e do Filho homens, amante da guerra e da morte, de organização política voltada para a coerção através da violência e do medo e foco nos obstáculos e perigo da vida. A capacidade humana criadora da mente versus o estado tecnológico das máquinas dominantes do pensamento.

É um início de um olhar prático e racional para o que anteriormente era visto como loucura. O lento despertar proporcionado pelo acesso à informação ilimitada, produção de novos olhares e interação direta entre pessoas em rede pela internet vem gerando sensações de repúdio a realidade em que estamos inseridos. A devastação ambiental, deturpação de valores e talentos em nome do consumo, perda das singularidades, solidão, medicamentação da vida, desigualdade social, fobia das diferenças, infantilização da inteligência pela grande mídia, acúmulo de riquezas nas mãos de poucos, genocídio dos pobres, falta de educação e saúde, gastos em guerras… Percebe-se que loucura é o que vivemos hoje. E desconfia-se que o que é considerado loucura pelos loucos possa ser, na verdade, sanidade e solução. Somente o que eles não entendem pode vencê-los.

Ao retomar práticas xamânicas, místicas e esotéricas e afirmá-las enquanto técnica quebram-se algumas correntes mentais presas no paradigma de que tudo que existe é somente aquilo que é provado pelo método científico. E somente com o despertar através do atavismo (crença de que carregamos genes ancestrais adormecidos que podem ser acessados em determinadas condições) das potencialidades escondidas dentro do próprio corpo humano valorizando também as experiências artísticas corporais das performances que propõem-se a repensar o corpo e valorizá-lo através de usos radicais, sexuais e chocantes que trazem à memória a dádiva dos sentidos aguçados em estados animais, podemos começar a olhar para as tecnologias que permeiam nossa vida de modo a coloca-las em seu devido lugar, o de auxiliar a vida do homem e não ditá-la.

Porque o que vemos acontecer é uma desconexão cada vez maior entre a mente, o corpo e a natureza em grande parte gerado pela dependência tecnológica do cotidiano. O abaixar a cabeça para a técnica criada em centros de pesquisa distantes e ministrada por engenheiros e cientistas em todas as áreas da vida vem gerando uma perda de autonomia e potência do que é ser humano. Aceitamos comer comidas artificiais e envenenadas porque acreditamos que só é possível alimentar a todos com o agronegócio e a indústria alimentícia. Abrimos mão do nosso poder de criação infinito porque nos julgamos inferiores às máquinas. E isso serve para tudo. Vamos ficando escravos do conforto proporcionado pelo Google, pelo GPS, pela lâmpada, pelo relógio despertador, pelo ar-condicionado, pelo micro ondas, pela televisão e todas as novidades deles derivadas. Vamos ficando flácidos, gordos, míopes, surdos, frios, distantes, solitários sem perceber que vivemos em um estado de possibilidade dentre tantos outros possíveis e invisíveis ao nosso redor. E caímos em um ciclo vicioso: quanto mais dependentes, menos humanos, quanto menos humanos, mais dependentes. E aí é claro que iremos permitir o estupro da planeta terra, iremos estuprá-la até que ela nos mate a todos já que precisamos das nossas extensões tecnológicas para viver dentro desse estado mental de dependência em que nos encontramos.

A ideia não é negar a tecnologia. Já que acreditamos em um projeto divino para tudo que acontece na história terrestre, consideramos que o homem é nada além de partículas do universo combinadas de modo a ter consciência de si. Por tanto, todo esse progresso e estudo técnico científico a que chegamos até agora não foi em vão. Tudo que passamos foi produto de uma curiosidade do universo sobre si mesmo, uma tentativa de entender e analisar-se. Só que chegamos a um ponto de entendimento em que devemos estar mais conscientes das escolhas que fazemos em relação aos rumos dessa curiosidade universal daqui pra frente. Seguiremos investindo milhões em tecnologias de destruição e domínio de nós mesmos ou em psicodelia, expansão cognitiva e produção de liberdade e autonomia? Ao seguirmos no caminho do acúmulo de conhecimento em centros de pesquisa dirigidos por alguns homens arrogantes que julgam-se Deus, estamos permitindo que biotecnologias criem vida artificiais, misturem espécies de batatas com galinhas em prol do consumo rápido e produção massiva, inteligência artificial que permitirá que em 2029 estejamos reféns da boa vontade de algumas máquinas superiores a nós mesmos, transhumanismos utópicos que pregam que a solução para a morte está em transplantar cérebros humanos para próteses maquínicas ignorando toda a complexidade energética corporal e tudo isso sendo alimentado pela energia elétrica dos rios devastados e em processo de desertificação dos seus arredores. A ideia é conscientizar sobre a escolha da tecnologia daqui pra frente.

Ao valorizarmos a mística e o corpo enquanto alta tecnologia e percebermos o estado de potencia que é ser vivo e humano podemos então nos apropriar da técnica até agora produzida e pensa-la de modo mais saudável, adaptá-la para novos fins criativos e libertadores de uma mente adormecida e refém de alguns softwares produzidos a portas fechadas em reuniões na Califórnia que vem ditando dinâmicas de pensamento dispersas e rasas, lógicas e frias. Ao libertarmos a mente propondo-nos a arriscar novos estados mentais e flertando com o que é considerado loucura pelos loucos estamos nos colocando no papel de cobaia de um novo possível de verdade. Estamos quebrando com o padrão regente do único possível e fazendo algo radicalmente diferente disfarçado de arte crítica e tecnológica. Pensando novos usos pra máquina e pro homem em parceria para a criação de uma nova possibilidade de estar na realidade e quem sabe, futuramente, alterá-la para um estado de vida mais saudável, em maior conexão com nós mesmos e com a natureza.

Tecnoxamãs do mundo, uni-vos!

Que mundo chato!

Vejo coisas. Sombrias e futuras que me causam reflexões solitárias. Será que estou louca? Porque ninguém mais vê o que eu vejo? Ou será que muitos por aí veem também mas eu só não os conheci em Ipanema? Vejo o fim do mundo em construção. Vejo a técnica substituindo a potência humana. Vejo a técnica substituindo a vida e se alimentando de toda independência que nos resta. Vejo a ciência e a mídia nos dizendo o que é verdade e o que é mentira e nos estuprando com seus artigos e criações de um mundo que não nos serve mais. Que saco esse mundo onde contos épicos não tem espaço para acontecer. Será que Aquiles sabia protagonizar uma epopéia? Meu auto corretor sequer conhece a palavra epopéia. A fina linha pontilhada vermelha em baixo da palavra escrita, por alguns milésimos de segundo, me faz duvidar se os feitos heroicos de outras épocas de fato existiram. Será que a máquina sabe me dizer melhor do que eu mesma o que é correto e o que é lapso de digitação?

Penso nos Mayas e nas pirâmides. Pedra sobre pedra construída sem mãos, apenas energia e pensamento. Em um outro mundo, tudo era energia. Todos éramos monges e xamãs e já nascíamos em uma cultura projetada para o controle da mente e aumento da produtividade energética inerente do corpo humano. Hoje a ciência nos comprova que é impossível enquanto os espíritos Mayas nos olham de cima às gargalhadas, riem da nossa evolução ao contrário. Queremos tanto o poder de realizar tudo sem ter o mínimo trabalho interno. Tudo pra fora. Enquanto internamente buscamos por uma normalidade ilusória que gera sofrimento e anti depressivos. Que mundo CHATO.

Estamos mergulhados naquela escuridão que vem antes da tempestade. Em breve, a grande aventura vai começar. A maior história de todos os tempos começa com a maior burrice de todos os tempos. Uma globalização da estupidez que pressiona a mãe terra aos seus limites finais, desrespeitando tudo que ela nos dá como se fosse sua mera obrigação. O estupro diário do maior animal que é esse planeta não vai acabar com a morte da única fonte de vida. Belisque um cavalo 500 vezes por dia, todos os dias, durante um século, incentivando através de postulemas, teorados, artigulações e muita televiolência que todos façam o mesmo com seus cavalos, todos os dias, durante um século. Até quando os cavalos seguirão nos servindo?

Mas a cegueira segue. Repetimos as mesmas conferências, as mesmas reuniões de planejamento, lutamos pelas mesmas políticas públicas, votamos nos mesmos governantes, criamos as mesmas novas organizações, vamos aos mesmos protestos, sentamos nas mesmas assembleias… “Mas não são as mesmas, Penny! Esta é a conferência clima 2014, aquela era a conferência ambiente vivo 2012. Esta é a assembleia da Bahia de Guanabara, aquela era a assembleia do Monte Fuji. Esta é a reunião de planejamento para as bacias hidrográficas do Itaimbibi, aquela era a reunião de planejamento para jovens educadores floricultores. Este é o Lula, aquela era a Dilma. Este é o Ban Ki Moon, aquele era Vargas. Esta é a Marcha pela liberdade de Hideki, aquela era a marcha Fora Cabral. Naquela época MST e CUT eram aliados, hoje eles são oposição…” Será possível tamanha falta de capacidade de análise sistêmica e abstração. O dia a dia da burocracia, da falta de símbolos, da falta de atenção ao redor está acabando com a nossa capacidade de perceber que estamos nos ocupando externamente de atividades de salvação ilusórias e idênticas! Estamos presos nos padrões da destruição. Einstein já dizia, insanidade é fazer a mesma coisa diversas vezes e esperar resultados diferentes.

A política está morta. O dia seguinte da revolução é exatamente igual ao dia anterior. É preciso se curar internamente, acreditar na potência energética do corpo humano, nas redes invisíveis da mente, articular as ecovilas, a permacultura, as plantas de poder, a nova espiritualidade, o xamanismo, os festivais de trance, educação livre, relacionamentos libertos, sair das cidades, voltar por campo, economia da abundância, fluxos, trocas… Para aí pensar-se o que criar com toda tecnologia que temos de modo que seja libertador e não dominador. E viver intensamente criando novas maneiras de estar na realidade. Desinstalando os programas mentais anteriores. Mudar o mundo é resultado de viver um novo mundo agora.

Viveremos 200 anos porque desde o dia em que nascemos todos nos dirão que o ser humano vive 200 anos. Não haverão estatísticas porque acreditaremos em possibilidades antes de médias. Teremos novos símbolos, novos rituais, novos mitos. Homens e mulheres serão guerreiros da mente, viverão em parceria e a ideia de inferioridade será apagada no nosso sistema operacional. Milhares de mundos florescerão de acordo com as comunidades que os criarem. Viajar o mundo será como viajar dimensões. Ninguém tentará impor uma única ideia de mundo por motivos comerciais, para facilitar transações. Produtos exóticos de cada continente seguirão sendo exóticos e serão valorizados por isso. Não haverá miséria porque cada mundo terá seu próprio modo de existir e o que é miséria para um mundo pode ser estado de provação positiva para outro.

Toda quarta-feira sentaremos ao redor da fogueira e a comunidade conversará sobre o que precisa. Entraremos em consenso sobre tudo. Quando alguém fizer algo reprovável, não haverá leis. A comunidade se encontrará para julgar. Viveremos em estados tribais ultra conectados através da mente e da tecnologia. Tudo será menos limpo e por isso seremos mais resistentes a bactérias e doenças naturalmente. Conforto será superficial, algo que acontece de vez em quando, em épocas especiais. Trabalharemos muito mais internamente do que externamente. Não teremos medo de meditar. Toda sexta-feira será dia de rezar para os novos deuses (antigos Deuses travestidos) e rezaremos dançando trance a noite inteira. Durante o festival, refletiremos, amaremos e nos curaremos sempre de alguma dor ancestral que carregamos no sangue. Seremos encarregados da redenção de tanta dor passada que segue conosco nos campos morfogenéticos das constelações familiares. Faremos parte de uma pequena parcela da humanidade que sobreviveu e teremos que repensar toda a existência no planeta.

Eu quero aventuras, exploração de mares mentais com nada além das estrelas como guia. Quero libertar minhas emoções livremente e não ter vergonha de sentir. Quero comer, beber e levitar ao mesmo tempo. Quero conversar telepaticamente com todos na rua. Quero acessar uma rede invisível de conhecimento e canalizar tudo que preciso saber sem ter que depender de Google ou qualquer programa elétrico. Quero acreditar em outras possibilidades de existência. E quero que a ciência se foda.

Mas antes de tudo isso haverá guerras, desastres, robôs assassinos… Até esse pessoal todo que está no poder morrer de velhice, seguirão tentando impor o que conhecem. Presos em estados mentais cristalizados, impossíveis de mudar. Eles não conseguem se ver. Somos governados por crianças mimadas em corpos flácidos onde não fluem ideias e sim reclamação. Falar sobre energia com esses caras é realmente piada.

O fim do mundo está chegando. Será que sou fanática por me preocupar com isso? Há sempre os que resistem, que riem, que zombam dessas ideias insanas enquanto estão confortavelmente no seu ar-condicionado olhando como um zumbi para a tela do computador. Estão ali entregues ao que a máquina lhe diz, ao que o professor lhe diz, ao que as estatísticas lhe dizem, ao que as placas na rua lhe dizem, ao que as leis lhe dizem… Completamente alienados do que seu coração lhe diz. Incapazes de criar. De alucinar. De viver intensamente. Ai que vida chata. Que dia a dia monótono. Será que é isso o que há pra nós? Será que é essa a epopéia contemporânea?

Duas Maneiras de Saber

de Bert Hellinger

Um erudito perguntou a um sábio,
como as partes se unem num todo
e como o saber sobre as muitas partes
se diferencia do saber sobre o todo.
O sábio respondeu:
O disperso se agrega num todo
quando encontra seu centro
e passa a atuar.
Pois so tendo um centro, o muito torna-se Essencial
e real,
e o todo então se nos revela como algo simples,
quase como pouco,
como força serena que segue adiante,
uma força que tem peso
e está contígua àquilo que sustenta.
Assim, para conhecer
ou transmitir o todo,
não preciso
saber,
dizer,
ter,
fazer
tudo em detalhe.
Quem quer entrar na cidade
passa por uma única porta.
Quem dá uma badalada num sino
faz retinir, com esse único som, muitos outros.
E quem colhe a maçã madura
não precisa averiguar a sua origem.
Ele a segura na mão
e a come.
O erudito não concordou: quem quer a verdade,
tem que conhecer também todos os detalhes.
Mas o sábio contestou.
Sabe-se muito apenas sobre a verdade que nos foi le
gada .
A verdade que leva adiante
é nova,
e ousada.
Pois ela contém o seu fim
assim como, uma semente, a árvore.
Portanto, aquele que ainda hesita em agir,
porque quer saber mais
do que lhe permite o próximo passo,
não aproveita o que atua.
Ele toma a moeda
pela mercadoria,
e transforma em lenha
as árvores.
O erudito acha
que essa só pode ser uma parte da resposta

e pede-lhe

um pouco mais.

Mas o sábio se recusa,

pois o todo é, no princípio, como um barril de mosto:

doce e turvo.

E precisa fermentação durante um tempo suficiente,

até ficar claro.

Então, aquele que o bebe em vez de degustá-lo,

passa a cambalear embriagado

Manifesto Surrealista

André Bretton, 1924

Tamanha é a crença na vida, no que a vida tem de mais precário, bem entendido, a vida real, que afinal esta crença se perde. O homem, esse sonhador definitivo, cada dia mais desgostoso com seu destino, a custo repara nos objetos de seu uso habitual, e que lhe vieram por sua displicência, ou quase sempre por seu esforço, pois ele aceitou trabalhar, ou pelo menos, não lhe repugnou tomar sua decisão ( o que ele chama decisão! ) . Bem modesto é agora o seu quinhão: sabe as mulheres que possuiu, as ridículas aventuras em que se meteu; sua riqueza ou sua pobreza para ele não valem nada, quanto a isso, continua recém-nascido, e quanto à aprovação de sua consciência moral, admito que lhe é indiferente. SE conservar alguma lucidez, não poderá senão recordar-se de sua infância, que lhe parecerá repleta de encantos, por mais massacrada que tenha sido com o desvelo dos ensinantes. Aí, a ausência de qualquer rigorismo conhecido lhe dá a perspectiva de levar diversas vidas ao mesmo tempo; ele se agarra a essa ilusão; só quer conhecer a facilidade momentânea, extrema, de todas as coisas. Todas as manhãs, crianças saem de casa sem inquietação. Está tudo perto, as piores condições materiais são excelentes. Os bosques são claros ou escuros, nunca se vai dormir.

Mas é verdade que não se pode ir tão longe, não é uma questão de distância apenas. Acumulam-se as ameaças, desiste-se, abandona-se uma parte da posição a conquistar. Esta imaginação que não admitia limites, agora só se lhe permite atuar segundo as leis de uma utilidade arbitrária; ela é incapaz de assumir por muito tempo esse papel inferior, e quando chega ao vigésimo ano prefere, em geral, abandonar o homem ao seu destino sem luz.

Procure ele mais tarde, daqui e dali, refazer-se por sentir que pouco a pouco lhe faltam razões para viver,  incapaz como ficou de enfrentar uma situação excepcional, como seja o amor, ele muito dificilmente o conseguirá. É que ele doravante pertence, de corpo e alma, a uma necessidade prática imperativa, que não permite ser desconsiderada. Faltará amplidão a seus gostos, envergadura a suas idéias. De tudo que lhe acontece e pode lhe acontecer, ele só vai reter o que for ligação deste evento com uma porção de eventos parecidos, nos quais não toma parte, eventos perdidos. Que digo, ele fará sua avaliação em relação a um desses acontecimentos, menos aflitivo que os outros, em suas conseqüências. Ele não descobrirá aí, sob pretexto algum, sua salvação.

Imaginação querida, o que sobretudo amo em ti é não perdoares.

Só o que me exalta ainda é a única palavra, liberdade. Eu a considero apropriada para manter, indefinidamente, o velho fanatismo humano. Atende, sem dúvida, à minha única aspiração legítima. Entre tantos infortúnios por nós herdados, deve-se admitir que a maior liberdade de espírito nos foi concedida. Devemos cuidar de não fazer mau uso dela. Reduzir a imaginação à servidão, fosse mesmo o caso de ganhar o que vulgarmente se chama a felicidade, é rejeitar o que haja, no fundo de si, de suprema justiça. Só a imaginação me dá contas do que pode ser, e é bastante para suspender por um instante a interdição terrível; é bastante também para que eu me entregue a ela, sem receio de me enganar ( como se fosse possível enganar-se mais ainda ). Onde começa ela a ficar nociva, e onde se detém a confiança do espírito? Para o espírito, a possibilidade de errar não é, antes, a contingência do bem?

Fica a loucura.”a loucura que é encarcerada”, como já se disse bem. Essa ou a outra.. Todos sabem, com efeito, que os loucos não devem sua internação senão a um reduzido número de atos legalmente repreensíveis, e que, não houvesse estes atos, sua liberdade ( o que se vê de sua liberdade ) não poderia ser ameaçada. Que eles sejam, numa certa medida, vítimas de sua imaginação, concordo com isso, no sentido de que ela os impele à inobservância de certas regras, fora das quais o gênero se sente visado, o que cada um é pago para saber. Mas a profunda indiferença de que dão provas em relação às críticas que lhe fazemos, até mesmo quanto aos castigos que lhes são impostos, permite supor que eles colhem grande reconforto em sua imaginação e apreciam seu delírio o bastante para  suportar que só para eles seja válido. E, de fato, alucinações, ilusões, etc. são fonte de gozo nada desprezível. A mais bem ordenada sensualidade encontra aí sua parte, e eu sei que passaria muitas noites a amansar essa mão bonita nas últimas páginas do livro. A Inteligência de Taine, se dedica a singulares malefícios. As confidências dos loucos, passaria minha vida a provoca-las. São pessoas de escrupulosa honestidade, cuja inocência só tem a minha como igual. Foi preciso Colombo partir com loucos para descobrir a América. E vejam como essa loucura cresceu, e durou.

Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da imaginação.

O processo da atitude realista deve ser instruído, após o processo da atitude materialista. Esta, aliás, mais poética que a precedente, implica da parte do homem um orgulho sem dúvida monstruoso, mas não uma nova e mais completa deposição. Convém nela ver, antes de tudo, uma feliz reação contra algumas tendências derrisórias do espiritualismo. Enfim, ela não é incompatível com uma certa elevação de pensamento.

Ao contrário, a atitude realista, inspirada no positivismo, de São Tomás a Anatole France, parece-me hostil a todo impulso de liberação intelectual e moral. Tenho-lhe horror, por ser feita de mediocridade, ódio e insípida presunção. É ela a geradora hoje em dia desses livros ridículos, dessas peças insultuosas. Fortifica-se incessantemente nos jornais , e põe em xeque a ciência, a arte, ao aplicar-se em bajular a opinião nos seus critérios mais baixos; a clareza vizinha da tolice, a vida dos cães. Ressente-se com isso a atividade dos melhores espíritos; a lei do menor esforço afinal se impõe a eles como aos outros. Conseqüência divertida deste estado de coisas, em literatura, é a abundância dos romances. Cada um contribui com sua pequena”observação”. Por necessidade de depuração o sr. Paul Valéry propunha recentemente fazer antologia do maior número possível de começos de romances cuja insensatez ele muito esperava. Os mais famosos autores seriam chamados a participar. Tal idéia dignificava também Paul Valéry, que, não há muito, a propósito dos romances, me garantia que, ele, sempre se recusaria a escrever:”A marquesa saiu às cinco horas.” Mas cumpriu ele a sua palavra?

Se o escrito de informação pura e simples de que a frase precipitada é exemplo, tem emprego corrente nos romances certamente é por não ir longe a ambição dos autores. O caráter circunstancial, inutilmente particular, de cada notação sua, me faz pensar que estão se divertindo, eles, à minha custa. Não me poupam nenhuma hesitação do personagem: será louro, como se chama, vamos sair juntos no verão? Outras tantas perguntas resolvidas decisivamente, ao acaso; só me restou o poder discricionário de fechar o livro, o que não deixo de fazer, ainda perto da primeira página. E as descrições! Nada se compara ao seu vazio; são superposições de imagens de catálogo, o autor as toma cada vez mais sem cerimônia, aproveita para me empurrar seus cartões postais, procura fazer-me concordar com os lugares-comuns:

A salinha onde foi introduzido o moço era forrada de papel amarelo: havia gerânios e cortinas de musselina nas janelas; o sol poente jogava sobre tudo isso uma luz clara… O quarto não continha nada de particular. Os móveis, de madeira amarela, eram todos velhos. Um sofá com grande encosto inclinado, uma mesa oval diante do sofá, um toucador, com espelho, entre as janelas, cadeiras encostadas às paredes, duas ou três gravuras sem valor, representando moças alemãs com pássaros nas mãos – eis a que se reduzia a mobília. ( Dostoievski, Crime e Castigo )

Que o espírito se proponha, mesmo por pouco tempo, tais motivos, não tenho disposição para admiti-lo. Podem sustentar que este desenho clássico está no lugar certo e que neste passo do livro o autor tem seus motivos para me esmagar. Perde seu tempo, pois não entro no seu quarto. A preguiça, a fadiga dos outros não me prendem. Tenho da continuidade da vida uma noção instável demais para igualar aos melhores os meus momentos de depressão, de fraqueza. Quero que se calem, quando param de ressentir. E entendam bem que não incrimino a falta de originalidade pela falta de originalidade. Digo apenas que não faço caso dos momentos nulos de minha vida, que da parte de qualquer homem pode ser indigno de cristalizar aqueles que lhe parecem tais. Esta descrição de quarto, e muitas outras, permitam-me, digo: passo.

Ora, cheguei à psicologia, e com este assunto nem penso em brincar.

O autor pega-se com um personagem, e escolhido este, faz seu herói peregrinar pelo mundo. Haja o que houver, este herói, cujas ações são admiravelmente previstas, tem a incumbência de não desmanchar, parecendo porém sempre desmanchar, os cálculos de que é objeto. As vagas da vida podem parecer arrebata-lo, roda-lo, afunda-lo, ele sempre dependerá deste tipo humano formado. Simples partida de xadrez, da qual me desinteresso mesmo, sendo o homem, qualquer um, um medíocre adversário para mim. Não posso é suportar estas reles discussões de tal ou qual lance, desde que não se trata nem de ganhar nem de perder. E se o jogo não vale um caracol, se a razão objetiva prejudica terrivelmente, como é o caso, quem nela confia, não convirá fazer abstração destas categorias?”É tão ampla a diversidade, que todos os tons de voz, todos os passos, tosses assôos, espirros…” Se um cacho de uvas não tem duas sementes iguais, como querem que lhes descreva este bago pelo outro, por todos os outros, que dele faça um bago bom para comer? Esta intratável mania de reduzir o desconhecido ao conhecido, ao classificável, embala os cérebros. O desejo de análise prevalece sobre os sentimentos. Disso resultam dilatadas exposições cuja força persuasiva reside na sua própria singularidade, e que iludem o leitor pelo recurso a um vocabulário abstrato, bastante mal definido, aliás. Se as idéias gerais que a filosofia se propõe até aqui debater, marcassem por aí sua incursão definitiva num domínio mais extenso, seria eu o primeiro a me alegrar. Mas por enquanto é só afetação; até aqui os ditos espirituosos e outras boas maneiras nos encobrem à porfia o verdadeiro pensamento que se busca ele próprio, em vez de se ocupar em obter sucessos. Parece-me que todo ato traz em si mesmo sua justificação, ao menos para quem foi capaz de comete-lo, que ele é dotado de um poder radiante que a mínima glosa, por natureza, enfraquece. Devido a esta última ele deixa mesmo, de certo modo, de se produzir. Não ganha nada com esta distinção. Os heróis de Stendhal caem aos golpes deste autor, apreciações mais ou menos felizes, que nada acrescentam à sua glória. Onde os encontraremos de fato, é onde Stendhal os perdeu.

Ainda vivemos sob o império da lógica, eis aí, bem entendido, onde eu queria chegar. Mas os procedimentos lógicos, em nossos dias, só se aplicam à resolução de problemas secundários. O racionalismo absoluto que continua em moda não permite considerar senão fatos dependendo estreitamente de nossa experiência. Os fins lógicos, ao contrário, nos escapam. Inútil acrescentar que à própria experiência foram impostos limites. Ela circula num gradeado de onde é cada vez mais difícil faze-la sair. Ela se apóia, também ela, na utilidade imediata, e é guardada pelo bom senso. A pretexto de civilização e de progresso conseguiu-se banir do espírito tudo que se pode tachar, com ou sem razão, de superstição, de quimera; a proscrever todo modo de busca da verdade, não conforme ao uso comum. Ao que parece, foi um puro acaso que recentemente trouxe à luz uma parte do mundo intelectual, a meu ver, a mais importante, e da qual se afetava não querer saber. Agradeça-se a isso às descobertas de Freud. Com a fé nestas descobertas desenha-se afinal uma corrente de opinião, graças à qual o explorador humano poderá levar mais longe suas investigações, pois que autorizado a não ter só em conta as realidades sumárias. Talvez esteja a imaginação a ponto de retomar seus direitos. Se as profundezas de nosso espírito escondem estranhas forças capazes de aumentar as da superfície, ou contra elas lutar vitoriosamente, há todo interesse em captá-las, capta-las primeiro, para submete-las depois, se for o caso, ao controle de nossa razão. Os próprios analistas só têm a ganhar com isso. Mas é importante observar que nenhum meio está a priori designado para conduzir este empreendimento, que até segunda ordem pode ser também considerado como sendo da alçada dos poetas, tanto como dos sábios, e o seu sucesso não depende das vias mais ou menos caprichosas a serem seguidas.

Com justa razão Freud dirigiu sua crítica para o sonho. É inadmissível, com efeito, que esta parte considerável da atividade psíquica ( pois que, ao menos do nascimento à morte do homem, o pensamento não tem solução de continuidade, a soma dos momentos de sonho, do ponto de vista do tempo a considerar só o sonho puro, o do sono, não é inferior à soma dos momentos de realidade, digamos apenas: dos momentos de vigília ) não tenha recebido a atenção devida. A extrema diferença de atenção, de gravidade, que o observador comum confere aos acontecimentos da vigília e aos do sono, é caso que sempre me espantou. É que o homem, quando cessa de dormir, é logo o joguete de sua memória, a qual, no estado normal, deleita-se em lhe retraçar fracamente as circunstâncias do sonho, em privar este de toda conseqüência atual,  e em despedir o único  determinante do ponto onde ele julga tê-lo deixado, poucas horas antes: esta esperança firme, este desassossego. Ele tem a ilusão de continuar algo que vale a pena. O sonho fica assim reduzido a um parêntese, como a noite. E como a noite, geralmente também não traz bom conselho. Este singular estado de coisas parece-me conduzir a algumas reflexões:

1.º nos limites onde exerce sua ação ( supõe-se que a exerce ) o sonho, ao que tudo indica, é contínuo, e possui traços de organização. A memória arroga-se o direito de nele fazer cortes, de não levar em conta as transições, e de nos apresentar antes uma série de sonhos do o sonho. Assim também, a cada instante só temos das realidades uma figuração distinta, cuja coordenação é questão de vontade. Importa notar que nada nos permite induzir a uma maior dissipação dos elementos constitutivos do sonho. Lamento falar disso segundo uma fórmula que exclui o sonho, em princípio. Quando virão os lógicos, os filósofos adormecidos? Eu gostaria de dormir, para poder me entregar aos dormidores, como me entrego aos que lêem, olhos bem abertos; para cessar de fazer prevalecer nesta matéria o ritmo consciente de meu pensamento. Meu sonho desta última noite talvez prossiga o da noite precedente, e seja prosseguido na próxima noite, com louvável rigor. É bem possível, como se diz. E como não está de modo nenhum provado que, fazendo isso, a”realidade” que me ocupa subsista no estado de sonho, que Lea não afunde no imemorial, porque não haveria eu de conceder ao sonho o que recuso por vezes à realidade, seja este valor de certeza em si mesma, que, em seu tempo, não está exposta a meu desmentido? Por que não haveria eu de esperar do indício do sonho mais do que espero de um grau de consciência cada dia mais elevado? Não se poderia aplicar o sonho, ele também, resolução de questões fundamentais da vida? Serão estas perguntas as mesmas num caso como no outro, e no sonho elas já estão? O sonho terá menos peso de sanções que o resto? Envelheço, e mais que esta realidade à qual penso me adstringir, é talvez o sonho, a indiferença que lhe dedico, que me faz envelhecer;

2.º. retomo o estado de vigília. Sou obrigado a considera-lo um fenômeno de interferência. Não apenas o espírito manifesta, nestas condições, uma estranha tendência à desorientação (é a história dos lapsos e enganos de toda espécie cujo segredo começa a nos ser entregue) mas ainda não parece que, em seu funcionamento normal, ele obedeça a outra coisa senão a sugestões que lhe vêm desta noite profunda das quais eu recomendo. Por mais bem condicionado que ele esteja, seu equilíbrio é relativo. Mal ousa expressar-se, e se o faz, é para limitar à constatação de que tal idéia, tal mulher, lhe faz impressão. Que impressão, seria incapaz de dize-lo, dando assim a medida de seu subjetivismo, e nada mais. Esta idéia, esta mulher, o perturba, predispõe-no a menos severidade. Ela tem a ação de isola-lo um segundo de seu solvente e de deposita-lo no céu, como belo precipitado que ele pode ser, que ele é. Em desespero de causa, invoca ele o acaso, divindade mais obscura que as outras, à qual atribui todos os seus desvarios. Que me diz que o ângulo sob o qual se apresenta esta idéia que o afeta, o que ele ama no olho desta mulher não é precisamente o que o liga a seu sonho, o prende a dados que ele perdeu por sua culpa? E se isso fosse de outro modo, do que não seria ele capaz, talvez? Eu gostaria de dar-lhe a chave deste corredor;

3.º. o espírito do homem que sonha se satisfaz plenamente com o que lhe acontece. A angustiante questão da possibilidade não mais está presente. Mata, vi mais depressa, ama tanto quanto quiseres. E se morres, não tens certeza de despertares entre os mortos? Deixa-te levar, os acontecimentos não permitem que os retardes. Não tens nome. É inapreciável a facilidade de tudo.

Que razão, eu te pergunto, razão tão maior que outra, confere ao sonho este comportamento natural, me  faz acolher sem reserva uma porção de episódios cuja singularidade, quando escrevo, me fulminaria? E no entanto, posso crer nos meus olhos, nos meus ouvidos: chegou o belo dia, esse bicho falou.

Se o despertar do homem é mais duro, se ele quebra muito bem o encanto, é que o levaram a ter uma raça idéia da expiação;

4.º. do momento em que seja submetido a um exame metódico, quando, por meios a serem determinados, se chegar a nos dar conta do sonho em sua integridade (isto supõe um disciplina da memória que atinge gerações; mesmo assim comecemos a registrar os fatos salientes), quando sua curva se desenvolve com regularidade e amplidão sem iguais, então se pode esperar que os seus mistérios, não mais o sendo, dêem lugar ao grande Mistério. Acredito na resolução futura destes dois estados, tão contraditórios na aparência, o sonho e a realidade, numa espécie de realidade absoluta, de surrealidade, se assim se pode dizer.

Parto à sua conquista, certo de não consegui-la, mas bem despreocupado com minha morte, vou suputar um pouco os prazeres de tal posse.

Conta-se que todo o dia, à hora de dormir, Saint-Roux mandava colocar à porta de seu solar em Camaret um cartaz onde se lia: O POETA TRABALHA. Muito haveria ainda a dizer, mas de passagem, só quis aflorar um assunto que, por si só, necessitaria um alongado discurso e um maior rigor; voltarei a esse ponto. Desta vez, minha intenção era dizer a verdade sobre o ódio ao maravilhoso que grassa em certos homens, deste ridículo no qual o querem fazer cair. Falando claro: o maravilhoso é sempre belo, qualquer maravilhoso é belo, só mesmo o maravilhoso é belo.

No domínio literário, só o maravilhoso é capaz de fecundar obras dependentes de um gênero inferior, como o romance, e de modo geral, de tudo que participa da anedota. Uma prova admirável é O Monge, de Lewis. O sopro do maravilhoso o anima por inteiro. Bem antes de o autor ter libertado seus principais personagens de qualquer coerção temporal, já se percebe que estão prontos para agir com altivez sem precedente. Esta paixão da eternidade, que os exalta sem cessar, confere inesquecíveis acentos a seu tormento e ao meu. Entendo que este livro só exalta, do começo ao fim, e da forma mais pura do mundo, aquilo que do espírito aspira a deixar o chão, e que, despojado de uma parte insignificante de sua afabulação romanesca, à moda do tempo, constitui um modelo de justeza, de inocente grandiosidade. parece-me que não se fez melhor, e a personagem de Matilde, em particular, é a criação mais comovente que se possa pôr ao ativo deste modo figurado em literatura. É menos um personagem que uma contínua tentação. E se um personagem não é uma tentação, o que é? Tentação extrema aquela. O”nada é impossível a quem sabe ousar” dá em  O Monge toda a sua convincente medida. As aparições aí têm um papel lógico, pois que o espírito crítico não se apodera delas para contesta-las. Também o castigo de Ambrósio é tratado de maneira legítima, pois é finalmente aceito pelo espírito crítico como desenlace natural.

Pode parecer arbitrário que eu proponha este modelo, quando se trata do maravilhoso, do qual as literaturas no Norte e as literaturas orientais tiraram subsídios e mais subsídios, sem falar das literaturas propriamente religiosas de toda a parte. É que a maior parte dos exemplos que estas literaturas poderiam me fornecer estão eivadas de puerilidade, pela boa razão de serem dirigidas às crianças. Cedo elas são cortadas do maravilhoso, e mais tarde, não guardaram suficiente virgindade de espírito para sentirem extremo prazer com Pele de Asno. Por mais encantadores que sejam, o homem julgaria decair ao se nutrir de contos de fadas, e concordo que estes não são todos de sua idade. O tecido de adoráveis inverossimilhanças requer mais finura, à medida que se avança, e ainda se está à espera destas espécies de aranhas… Mas as faculdades não mudam radicalmente. O medo, a atração do insólito, as chances, o gosto do luxo são molas às quais não se apela em vão. Há contos a escrever para adultos, contos de fadas, quase.

O maravilhoso não é o mesmo em todas as épocas; participa obscuramente de uma classe de revelação geral, de que só nos chega o detalhe: são as ruínas românticas, o manequim moderno ou qualquer outro símbolo próprio a comover a sensibilidade humana por algum tempo. Nestes quadros que nos fazem sorrir, no entanto sempre se pinta a inquietação humana, e é por isso que os levo a sério, que os julgo inseparáveis de algumas produções geniais, as quais, mais que as outras, estão dolorosamente impregnadas dessa inquietação. São os patíbulos de Villon, as gregas de Racine, os divãs de Baudelaire. Coincidem com um eclipse do gosto que sou feito para suportar, eu que tenho do gosto a idéia de um grande defeito. No mau gosto de minha época, procuro ir mais longe que os outros. Para mim, se eu tivesse vivido em 1820, para mim”a freira sangrenta”, a mim, não poupar este sorrateiro e banal dissimulons de que fala o periódico Cuisin, a mim, a mim, percorrer em metáforas, como ele diz, todas as fases do “disco prateado”. Por hoje, penso num castelo, cuja metade não está obrigatoriamente em ruína; este cabelo me pertence, eu o vejo num sítio agreste, não longe de Paris. Suas dependências não acabam mais e, quanto ao interior, foi terrivelmente restaurado, de modo a nada deixar a desejar, em matéria de conforto. Junto à porta, encoberta pela sombra das árvores, estão os automóveis, estacionados. Alguns de meus amigos aí estão, em permanência: eis o Louis Aragon que parte – ele só tem tempo para cumprimentar-nos; Philippe Soupault se levanta com as estrelas Paul Eluard, nosso grande Eluard, ainda não voltou. Eis Robert Desnos e Roger Vitrac, que decifram no parque um velho edital sobre o duelo; Georges Auric, Jean Paulhan, Max Morise, que rema tão bem, Benjamin Péret, em suas equações de pássaros; e Joseph Delteil; e Jean Carrive; e Georges Limbour (há uma fileira de Georges Limbour); e Marcel Noll; eis T. Traenkel que nos acena de seu balão cativo, Georges Malkine, Antonin Artaud, Francis Gerard, Pierre Naville, J. A . Boiffard, depois Jacques Baron e seu irmão, belos e cordiais, tantos outros ainda, e mulheres deslumbrantes, palavra. Estes jovens não podem se recusar nada, seus desejos são, para a riqueza, ordens. Francis Picabia vem nos visitar e, na semana passada, recebeu-se na galeria dos espelhos um tal Marcel Duchamp que ainda não se conhecia. Picasso caça aí por perto. O espírito de desmoralização ergueu domicílio no castelo, e é com ele que tratamos sempre que há problema de relação com nossos semelhantes, mas as portas estão sempre abertas, e sabeis, não se  começa”agradecendo” às pessoas. De mais a mais, a solidão é vasta, não nos encontramos muito. Pois o essencial não é sermos senhores de nós mesmos, das mulheres, do amor também?

Vão atribuir-me uma mentira poética; cada um vai dizer que moro na Rua Fontaine, e que não vai beber desta água. Na verdade! mas este castelo cujas honras lhe faço, tem ele certeza que seja uma viagem? E se, não obstante, o palácio existisse? Meus hóspedes estão aí para responderem por isso; seu capricho é a estrada luminosa que aí conduz. Vivemos de fato à nossa fantasia, quando estamos lá. E como o que um faz poderia incomodar o outro, ali, ao abrigo da procura sentimental e dos encontros ocasionais?

O homem põe e dispõe. Depende dele só pertencer-se por inteiro, isto é, manter em estado anárquico o bando cada vez mais medonho de seus desejos. A poesia ensina-lhe isso. Traz nela a perfeita compensação das misérias que padecemos. Ela pode ser também uma ordenadora, bastando que ao golpe de uma decepção menos íntima se tenha a idéia de tomá-la ao trágico. Venha o tempo quando ela decrete o fim do dinheiro e parta,  única, o pão do céu para a terra! Haverá ainda assembléias nas praças públicas, e movimentos dos quais não pensaste participar. Adeus seleções absurdas, sonhos de abismo, rivalidades, longas paciências, a evasão das estações, a ordem artificial das idéias, a rampa do perigo, tempo para tudo! Basta se Ter o trabalho de praticar a poesia. Não é a nós que compete, que já vivemos dela, o esforço de fazer prevalecer o que guardamos para nossa mais ampla inquietação?

Não importa se há desproporção entre esta defesa e a ilustração que vai segui-la. Tratava-se de remontar às fontes de imaginação poética, e mais ainda, ficar aí. Não tenho a pretensão de ter feito isso. É preciso muito domínio sobre si, para querer se estabelecer nestas recuadas regiões onde tudo parece andar tão mal, e com maior razão, para querer aí conduzir alguém. E nunca se tem certeza de aí estar em absoluto. Como não se vai gostar, fica-se disposto a se deter em outra parte. A verdade é que agora uma flecha indica a direção destes lugares e que alcançar a meta verdadeira só depende de resistência do viajante.

Conhece-se, pouco mais ou menos, o caminho percorrido. Tive o cuidado de contar, no decurso de um estudo sobre o caso de Robert Desnos, intitulado: ENTRADA DOS MÉDIUNS, que eu tinha sido levado a”fixar minhas atenções sobre frases mais ou menos parciais, que em plena solidão, quase pegando no sono, ficam perceptíveis para o espírito, sem ser possível descobrir-lhes uma determinação prévia”. Eu mal acabara de tentar uma aventura poética, com o mínimo de chances, isto é, minhas aspirações eram as mesmas de hoje, mas eu tinha fé na lentidão de elaboração para fugir a contatos inúteis, contatos que eu reprovava intensamente. Era o pudor do pensamento, de que me sobra ainda alguma coisa. No fim de minha vida, com dificuldade chegarei a falar como falam todos, culpa de minha voz e de meus gestos escassos. A virtude da palavra (da escrita: bem maior) me parecia ligada à faculdade de encurtar de modo marcante a exposição (pois era uma exposição) de alguns poucos fatos, poéticos ou outros, substanciais para mim. Em minha idéia, não era outro o processo usado por Rimbaud. Eu compunha, e o meu empenho de variedade merecia melhor sorte, os últimos poemas do Mont de Pieté, isto é, conseguia tirar das linhas em branco desse livro um partido incrível. Essas linhas eram o olho fechado sobre operações de pensamento, que, julgava eu, deviam ser ocultadas do leitor. Não era trapaça, mas sim, gosto de precipitar as coisas. Eu obtinha a ilusão de uma cumplicidade possível, cada vez menos dispensável para mim. Eu pegara o vezo de afagar imoderadamente as palavras pelo espaço admitido em torno delas, por suas tangências com outras inumeráveis palavras não pronunciadas por mim. O poema FLORESTA-NEGRA marca exatamente este estado de espírito. Passei seis meses a escrevê-lo e, podem acreditar, não descansei um só dia. Mas tratava-se da estima que eu então me dedicava, não é bastante, compreendam. Adoro estas confissões estúpidas. Naquele tempo, a pseudopoesia cubista procurava se implantar, mas saíra desarmada do cérebro de Picasso, e quanto a mim, eu era tido como tão enfadonho quanto a chuva (ainda sou). Eu desconfiava, aliás, que do ponto de vista poético, eu estava no caminho errado, mas eu me safava como podia, desafiando o lirismo, a golpes de definição e de receitas (os fenômenos Dada não tardariam a se manifestar), e fingindo encontrar uma aplicação da poesia na publicidade (eu sustentava que o mundo acabaria, não por um belo livro, mas por uma bela propaganda do inferno e do céu).

Na mesma época, um homem, tão ou mais enfadonho que eu, Pierre Reverdy, escrevia:

A imagem é uma criação pura do espírito. Ela não pode nascer da comparação, mas da aproximação de duas realidade mais ou menos remotas. Quanto mais longínquas e justas forem as afinidades de duas realidades próximas, tanto mais forte será a imagem – mais poder emotivo e realidade poética ela possuirá… etc.

Estas palavras, se bem que sibilinas para os profanos eram indicadores muito fortes, e sobre elas meditei longamente. Mas a imagem era fugidia. A estética de Reverdy, estética toda a posteriori, fazia-me tomar os efeitos pelas causas. Entrementes, fui obrigado a renunciar definitivamente a meu ponto de vista.

Certa noite então, antes de adormecer, percebi, nitidamente articulada a ponto de ser impossível mudar-lhe uma palavra, mas bem separada do ruído de qualquer voz, uma frase bem bizarra que me alcançava sem trazer indício dos acontecimentos aos quais, segundo o testemunho de minha consciência, eu estava preso, nessa ocasião, frase que me pareceu insistente, frase, se posso ousar, que batia na vidraça. Rapidamente tive a sua noção, e já me dispunha a passar adiante quando o seu caráter orgânico me reteve. Na verdade, esta frase me espantava; infelizmente não a guardei até hoje, era algo como:”Há um homem cortado em dois pela janela”, mas não poderia haver ambigüidade, acompanhada como estava pela fraca representação visual de um homem andando, e seccionado a meia altura por uma janela perpendicular ao eixo de seu corpo. Fora de dúvida era a simples aprumação no espaço de um homem debruçado à janela. Mas esta janela tendo seguido o deslocamento do homem vi que se tratava de uma imagem de tipo bastante raro e logo pensei em incorporá-la a meu material de construção poética. Assim que lhe concedi este crédito ela deu lugar a uma sucessão quase ininterrupta de frases que não me surpreenderam menos e me deixaram sob a impressão de uma tal gratuidade que me pareceu ilusório o império que até então eu mantinha sobre mim mesmo, e só pensei então em liquidar a interminável disputa travada em mim (Knut Hamsun põe na dependência da fome este tipo de revelação que me assaltou, e talvez não esteja ele errado (o fato é que nessa época eu não comia todos os dias). Com toda certeza são de fato as mesmas manifestações que ele relata nestes termos:

“No dia seguinte acordei cedo. Estava ainda escuro. Meus olhos estavam abertos fazia tempo, quando ouvi o relógio do apartamento inferior bater cinco horas. Quis novamente dormir mas não consegui, eu estava completamente desperto e mil coisas baralhavam na minha cabeça. De repente me vieram uns bons trechos, próprios para utilização num esboço, num folhetim; subitamente, por acaso, achei frases muito bonitas, frases como jamais escreverei. Eu as repetia lentamente, palavra por palavra, eram excelentes. E vinham mais outras. Levantei-me, peguei lápis e papel na mesa atrás de minha cama. É como se eu tivesse rompido uma veia, uma palavra seguia outra, colocava-se em seu lugar, surgiam as réplicas, em meu cérebro, eu gozava profundamente. Os pensamentos me vinham tão rapidamente e fluíam tão abundantemente que eu perdia uma porção de detalhes delicados, porque meu lápis não podia andar tão depressa, e entretanto eu me apressava, a mão sempre em movimento, eu não perdia um minuto. As frases continuavam a brotar em mim, eu estava prenhe de meu assunto”.

Apollinaire afirmava que os primeiros quadros de Chirico haviam sido pintados sob a influência de distúrbios cenestésicos (enxaquecas, cólicas).

Tão ocupado estava eu com Freud nessa época, e familiarizado com os seus métodos de exame que eu tivera alguma ocasião de praticar em doentes durante a guerra, que decidi obter de mim o que se procura obter deles, a saber, um monólogo de fluência tão rápida quanto possível sobre o qual o espírito crítico do sujeito não emita nenhum julgamento, que não seja, portanto, embaraçado com nenhuma reticência, e que seja tão exatamente quanto possível o pensamento falado. Parecia-me, ainda me parece – a maneira como me chegara a frase do homem seccionado o comprovava – que a velocidade do pensamento não é superior à da palavra e que ele não desafia forçadamente a língua, nem mesmo a caneta que corre. Foi com estas disposições que Philippe Soupault, a quem eu comunicara estas primeiras conclusões, e eu começamos a escrevinhar, pouco nos importando com o que pudesse suceder literariamente. A facilidade de realização fez o resto.

No fim do primeiro dia podíamos ler umas cinqüenta páginas obtidas por este meio, e começar a comparação de nossos resultados. No conjunto, os de Soupault e os meus mostravam notável analogia: mesmo vício de construção, falhas similares, mas também, de cada lado, a ilusão de um estro maravilhoso, muita emoção, escolha considerável de imagens de uma tal qualidade que não teríamos sido capazes de preparar uma só delas, mesmo com muito empenho, um pitoresco muito especial, e de um lado e de outro, alguma proposição de pungente burlesco. As únicas diferenças entre nossos dois textos me pareceram corresponder essencialmente a nossos temperamentos recíprocos, o de Soupault menos estático que o meu, e se ele me permite esta leve crítica, ao fato de Ter ele cometido o erro de distribuir, ao alto de certas páginas, e sem dúvida por espírito de mistificação, algumas palavras à guisa de títulos. Em compensação, devo-lhe a justiça de dizer que ele se opôs sempre, com toda energia, a qualquer retoque, à mínima correção ao curso de toda passagem desse gênero que me parecia até descabida. Tinha ele toda razão nisso. É com efeito muito difícil apreciar em seu justo valor os diversos elementos presentes, diga-se mesmo, é impossível apreciá-los numa primeira leitura. A vós que escreveis, estes elementos, na aparência, vos são tão estranhos quanto a outro qualquer, e naturalmente desconfiais. Falando poeticamente, eles se reconhecem sobretudo por um alto grau de absurdidade imediata, sendo o próprio desta absurdidade, num exame mais aprofundado, dar lugar a tudo que há de admissível, de legítimo no mundo: a divulgação de certo número de propriedades e de fatos não menos objetivos, em suma, que os outros.

Em homenagem a Guillaume Apollinaire, que morrera há pouco, e que por diversas vezes nos parecia ter obedecido a um arrebatamento desse gênero, sem entretanto ter aí sacrificado medíocres meios literários, Soupault e eu designamos com o nome de SURREALISMO o novo modo de expressão pura, agora à nossa disposição, e com o qual estávamos impacientes para beneficiar nossos amigos. Creio não ser mais necessário, hoje, repisar esta palavra, e que a acepção em que a tomamos acabou por prevalecer sobre a acepção apollinairiana. Ainda com maior razão poderíamos ter-nos apossado da palavra SUPERNATURALISMO, empregada por Gerard de Nerval na dedicatória de Filles de Feu. Com efeito, parece que Nerval possuiu às mil maravilhas o espírito ao qual recorremos, enquanto Apollinaire não possuía senão a letra, ainda imperfeita, do surrealismo, tendo sido incapaz de lhe traçar um esboço teórico que valha a pena. Eis duas frases de Nerval que acerca disso me parecem bem significativas:

Vou explicar-lhe, meu caro Dumas, o fenômeno que você citou acima. Como você sabe, há certos contistas que não podem inventar sem se identificarem aos personagens de sua imaginação. Você sabe com que convicção nosso velho amigo Nodier narrava como ele tivera a desgraça de ser guilhotinado na época da Revolução; ficava-se de tal modo persuadido que se ficava querendo saber como ele conseguira recolocar sua cabeça.

… E já que você teve a imprudência de citar um soneto composto neste estado de devaneio onírico SUPERNATURALISTA, como diriam os alemães, vai ouvi-los todos. Não são nada mais obscuros do que a metafísica de Hegel ou as MEMORÁVEIS de Swedenborg, e perderiam encanto se fossem explicados, se a coisa fosse possível, conceda-me ao menos o mérito da expressão…

Só com muita fé poderiam nos contestar o direito de empregar a palavra SURREALISMO no sentido muito particular em que o entendemos, pois está claro que antes de nós esta palavra não obteve êxito. Defino-a pois uma vez por todas.

SURREALISMO, s.m. Automatismo psíquico puro pelo qual se propõe exprimir, seja verbalmente, seja por escrito, seja de qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento. Ditado do pensamento, na ausência de todo controle exercido pela razão, fora de toda preocupação estética ou moral.

ENCICL. Filos. O Surrealismo repousa sobre a crença na realidade superior de certas formas de associações desprezadas antes dele, na onipotência do sonho, no desempenho desinteressado do pensamento. Tende a demolir definitivamente todos os outros mecanismos psíquicos, e a se substituir a eles na resolução dos principais problemas da vida. Deram testemunho de SURREALISMO ABSOLUTO os srs. Aragon, Baron, Boiffard, Breton, Carrive, Crevel, Delteil, Desnos, Eluard, Gerard, Limbour, Malkine, Morise, Naville, Noll, Péret, Picon, Soupault, Vitrac.

Parece que são, até agora, os únicos, e não haveria engano, não fosse o caso apaixonante de Isidore Ducasse, sobre o qual me faltam elementos. E certamente, não considerando senão superficialmente seus resultados, bom número de poetas poderiam passar por surrealistas, a começar por Dante, e, em seus melhores dias, Shakespeare. No curso das diferentes tentativas de redução, em que empenhei, do que se chama, por abuso de confiança, o gênio, nada encontrei que se possa finalmente atribuir a outro processo que não seja este.

As NOITES de Young são surrealistas do começo ao fim; infelizmente é um padre que fala, mau padre, sem dúvida, mas padre. Swift é surrealista na maldade. Sade é surrealista no sadismo. Chateaubriand é surrealista no exotismo. Constant é surrealista em política. Hugo é surrealista quando não é tolo. Desbordes-Valmore é surrealista em amor. Bertrand é surrealista no passado. Rabbe é surrealista na morte. Poe é surrealista na aventura. Baudelaire é surrealista na moral. Rimbaud é surrealista na prática da vida e alhures. Mallarmé é surrealista na confidência. Jarry é surrealista no absinto. Nouveau é surrealista no beijo. Saint-Pol-Roux é surrealista no símbolo. Fargue é surrealista na atmosfera. Vaché é surrealista em mim. Reverdy é surrealista em sua casa. Saint-John Perse é surrealista a distância. Roussel é surrealista na anedota. Etc.

Insisto, eles nem sempre são surrealistas, neste sentido que descubro neles um certo número de idéias preconcebidas, às quais, bem ingenuamente, eles se apegavam. Apegavam porque ainda não tinham ouvido a voz surrealista, a que continua a pregar à véspera da morte e acima das tempestades, porque não queriam servir somente para orquestrar a maravilhosa partitura. Eram instrumentos soberbos demais, e por isso nem sempre produziram som harmonioso.

Nós, porém, que não nos dedicamos a nenhum trabalho de filtração, que nos fizemos em nossas obras os surdos receptáculos de tantos ecos, modestos aparelhos registradores que não se hipnotizam com o desenho traçado, talvez sirvamos uma causa mais nobre. Assim devolvemos com probidade o”talento” que nos atribuem. Falem-me do talento deste metro de platina, deste espelho, desta porta, e do céu, se quiserem.

Não temos talento, perguntem a Philippe Soupault:

“As manufaturas anatômicas e as habitações baratas destruindo as mais importantes cidades”.

A Roger Vitrac:

“Recém-invocara eu o mármore-almirante  (A Mesa de Mármore era um Tribunal instalado no Palácio de Justiça em Paris, realizando suas sessões numa imensa mesa de mármore, que lhe deu o nome; era de sua alçada o julgamento de militares, e sua jurisdição tinha três divisões: o almirantado, as florestas e águas, e a área do condestável) quando este virou nos calcanhares como um cavalo que se empina diante da estrela polar e me indicou no plano de seu chapéu bicorne uma região onde eu devia passar a minha vida”.

A Paul Eluard:

“Conto uma história bem conhecida, releio um poema célebre: estou apoiado a um muro, orelhas verdejantes, lábios calcinados”.

A Max Morise:

“O urso das cavernas e sua companhia que mia, o volante e seu valete no vento, o grão-chanceler com sua mulher, o espantalho e seu amigo alho, a fagulha com agulha, o carniceiro e seu irmão carnaval, o varredor com o seu tapa-olho, o Mississipi e seu sapo, o coral e o colar, o Milagre e seu santo por favor desapareçam da superfície do mar”.

A Joseph Delteil:

“Ai de mim! Creio na virtude das aves. E basta uma pena para me matar de rir!”.

A Louis Aragon:

“Durante uma interrupção da partida, quando os jogadores, reunidos, rodeavam a poncheira escaldante, perguntei à árvore se ainda tinha sua fita vermelha”.

A mim mesmo, que não pude me impedir de escrever as linhas serpentinas, alucinantes, deste prefácio.

Perguntem a Robert Desnos que, dentre nós, foi talvez quem mais se aproximou da verdade surrealista, aquele que, em obras ainda inéditas e ao longo de múltiplas experiências às quais prestou, justificou plenamente a esperança que eu depositava no surrealismo e me intima a esperar muito dele ainda. Hoje em dia Desnos fala surrealista à discrição. A prodigiosa agilidade de que ele dispõe para seguir oralmente seu pensamento nos vale, quanto nos apraz, discursos esplêndidos, e que se perdem, Desnos tendo mais que fazer do que fixa-los. Ele lê em si como em livro aberto, e nada faz para reter as folhas que se desvanecem no vento de sua vida.

Tecnoxamanismo no rádio 27.03.2014

Fabs e Livs aproveitam os novos fluxos da rádio para seguir a gambiarra tecnoxamanica da fala pelo espectro. Com convidados espontâneos e atraídos pela sincronia (Lohan, Kadu e Luiza) dando ideias e se empolgando com o pensar mundo criativo. Cosmologia, espaço sideral, MARS, sentido da vida, catástrofe, novos olhares, Carlos Castaneda, xamanismo e tecnologias ultra avançadas se misturam em um papo que já superou a linearidade.

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