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Ela foi mesmo.

Ela foi pra África do Sul. “Mas você vai fazer o que lá?” Viver.

Foi em uma missão: viver ou matar alguns sonhos. Cansada da vida normal trabalho-casa-sexta-feira, ela sabia que a vida era mais que isso. Aos poucos sentia-se envelhecer. Seu corpo endurecido de tanta preocupação desnecessária. Na verdade, estava viciada em se preocupar. Estava viciada em sentir medo. Mas seu maior vício era o sono. Sua oportunidade estava passando enquanto ela vivia essa vida sem grandes acontecimentos meio dormindo, meio acordada e meio sonhando. “Um dia eu vou viver. Um dia vou ser feliz. Um dia vou viajar. Um dia vou estar pronta.” Ela pensava sempre no seu futuro com grandes expectativas e por isso aceitava seu presente sem vivê-lo completamente. Estava sempre separada internamente, não permitia-se apegar muito a nada e nem ninguém porque sabia que um dia ela iria viver de verdade.

Aos poucos foi tomando consciência de que a vida no presente é a vida real. Conheceu uma pessoa com quem poderia ter um futuro, arrumou um trabalho no qual poderia crescer. Mas ela não se permitia viver essas experiências completamente, se entregar pro fluxo da vida porque secretamente estava apenas esperando seu momento de viajar. Todos esperavam isso dela. Há anos que ela criava essa impressão nas pessoas, todos já a viam como uma viajante sem que ela de fato tivesse se entregado para esse processo. Esse sonho já era maior que ela mesma, ele tornou-se uma parte de sua personalidade mas vinha mesmo da alma.

Finalmente escolheu a vida. Escolheu viver no presente. E ir viver esses sonhos que a atormentavam e entusiasmavam. Cansou de usar seus sonhos como fuga e resolveu usá-los como realidade. Juntou um dinheiro – não muito. Parcelou a passagem no cartão sem saber muito bem como pagaria isso no futuro. Arrumou uma mochila básica. E dessa vez deixou seu quarto, sua família, seus amigos no seu devido lugar – suas raízes. Foi-se sabendo que sempre teria pra onde voltar. Sabendo de onde vinha. Pois só assim poderia ir a algum lugar.

No aeroporto, sentia-se confusa, com muito medo, com sono, assustada. Era como se abrisse os olhos de um longo sono sem saber muito bem onde estava – praticamente um coma, tinha que perguntar as coisas mais simples, não conseguia focar nas placas, era muita gente, muito barulho, muita informação. Acabou perdendo seu voô por um erro da TAM (pra variar) e passou uma noite sozinha em um hotel, se despedindo daquela pessoa que sabia que deixaria de ser. Foi bom ter uma noite em São Paulo, como num leve intervalo entre duas realidades, um espaço-entre.

O que ela estava fazendo? Não sabia responder. Tinha algumas intenções mas nada muito concreto. Ela queria se entregar pro fluxo do universo, queria confiar na abundância e na bondade dele. Queria permitir-se mudar. Queria se mover. Encontrar um externo que curasse seu interno pois sozinha não estava conseguindo mais avançar no seu processo. Queria fazer amigos. Encontrar uma família de alma. Se apaixonar. Fazer coisas que nunca fez. Colocar-se em situações novas para se conhecer melhor. Queria dançar, cantar, conversar, rir, correr, conhecer, desenvolver, aprofundar. Queria sentir vontade de viver, de sair, conhecer pessoas. Confiar de novo.

Acima de tudo: queria acordar.